A Direcção do Progresso

Sempre que algo acontece que não se enquadra no modelo de progresso da modernidade, chovem comentários de que “não se anda para a frente” ou que é “um retrocesso civilizacional” ou, muito simplesmente, que se estão “a perder os direitos adquiridos”, entre muitos outros comentários que mais não dizem que estamos “a andar para trás”. Estes eventos são conhecidos: se um parlamento votar contra a adopção de crianças por homossexuais, se votar contra propostas de leis feministas ou se se recusar a abdicar das poucas instituições tradicionais que restam, começarão de imediato os coros de indignação progressista.

Isto é extremamente curioso porque dá a entender que existe na população que vocifera uma visão específica da filosofia da história e do progresso. Mais, parece que é a única vigente, sendo que os que a contrariam (nos parlamentos) o fazem mais a medo da mudança do que através de uma visão filosófica específica. Um pouco a confirmar a piada de que o conservador é aquela criança que primeiro não quer entrar na banheira mas depois já não quer sair de lá.

Esta actual visão dominante nas massas é a visão linear do progresso histórico, onde a humanidade caminha linearmente em direcção à absoluta liberdade individual que dará lugar ao racionalismo iluminado e onde os indivíduos serão donos absolutos de si mesmo e do seu pensamento. Serão assim livres das amarras comunitárias e tradicionais. Esta visão considera que a história caminha sempre para melhor e que quaisquer problemas que surjam são apenas obstáculos ao destino teleológico da liberdade e igualdade individual ou da Razão; obstáculos a serem ultrapassados, claro. Na visão linear do progresso enquadram-se autores como Hegel, Kant, Marx ou, mais recentemente, Fukuyama e o seu “fim de história liberal democrata”. Contudo, existem outras visões diferentes, como a visão cíclica da história (de que Oswald Spengler é um representante) que vê os eventos históricos civilizacionais como organismos que nascem, prosperam, definham e morrem.

Existe também a visão esférica da história (a qual me convence bastante mais), que vê os eventos da história como esferas que podem ir em qualquer direcção e que estão sujeitas a diversas forças que empurram em direcções antagónicas. Esta será uma visão onde não há necessariamente uma lógica teleológica mas sim uma luta de poder e vontades. Sem surpresa, Nietzsche foi um dos que criticou ferozmente a lógica da progressão linear da história. Desta forma, há vencedores e vencidos, há aqueles que ficam para escrever a história e os que se extinguem colectivamente por falta de engenho ou vontade. Vivemos numa altura em que, em termos políticos, é “proibido” questionar se a libertação acrítica dos indivíduos de um grupo pode levar ao fim histórico deste.

Mas como é que tantos indivíduos, principalmente na classe média, aderem a uma visão específica da história? Especialmente sabendo-se que esta não é a única que foi pensada. A resposta mais simples é que o liberalismo “iluminado” domina a moralidade das elites, que, por sua vez, através do domínio das instituições políticas e culturais, difunde essa visão moral como a única que está correcta. Por outra palavras, a doutrinação funciona e, apesar dos seus limites, sempre funcionou. A esmagadora maioria daqueles que fazem comentários a queixarem-se de que “estamos a andar para trás” estão a pensar dentro dos moldes da filosofia do progresso linear, mas é mais do que certo que nunca nenhum deles parou para ler sobre a lógica em si ou para a questionar; os seus comentários são naturalmente pavlovianos; ou seja, Kant vive nas suas mentes, depurado e simplificado pelos agentes político-culturais que leram de facto o autor alemão (assim como os demais autores do iluminismo) e que veiculam a sua moralidade todos os dias à sociedade.

Os detractores mais cépticos deste processo por vezes queixam-se de que estamos cada vez mais a entrar num totalitarismo humanista onde as elites impõem à força a “libertação e igualdade” do indivíduo. Queixam-se que tal é uma absoluta contradição. Contudo, não se deviam surpreender; já o próprio Kant considerava que a libertação do indivíduo necessitava de despotismo iluminado e que através da “educação” (i.e. doutrinação), do cosmopolitismo imposto e da paz eterna se poderia atingir esse fim. Tudo o que está a acontecer foi já pensado antes; confirmando a velha máxima de John M. Keynes que mesmo os homens que se pensam pragmáticos e livres de ideologias são escravos de um qualquer pensador. Esta escravidão é provavelmente a tragédia da visão linear da história e do progresso.

Carnavais

Passou mais um Carnaval. Ligámos a televisão e deparámo-nos com um Portugal “brasileiro” em inúmeras das suas localidades; esse espectáculo deslocado onde portuguesas semi-nuas tentam emular uma cultura de carácter afro-brasileiro com o clima errado e com a génese errada. O resultado agradará a alguns com certeza, afinal de contas nunca foram poucos os que quiseram ter licença para ver tanto com custos tão baixos. Isto é especialmente verdade num país com tradição católica onde a formalidade e o pudor imperaram em termos comparativos (i.e. aquilo que a new left gramsciana chamaria de cultura autoritária ou castradora).

Pois bem, tudo isso está a mudar; e no carnaval português “brasileiro” já pouco há a esconder ou a conter. Tal não é apenas uma perda de identidade, é igualmente um lento mudar de paradigma que aceita de bom grado o que é relaxado e rejeita tudo o que implique disciplina e civilização. Assim, não é surpreendente que não seja preciso nenhum acordo ortográfico (AO) ao nível da aculturação para que certos comportamentos culturais sejam absorvidos, substituindo os tradicionais e autóctones. Ao contrário do AO, não é preciso nenhum tratado entre países, basta a televisão, a promovida ideologia da identificação com a “humanidade” e um fascínio pelo “outro”; raramente o “outro” que tem disciplina, mas sim o “outro” que oferece um modelo mais hedonista e materialista; e assim será até que o hedonismo se esgote em si mesmo.

O AO e a aculturação deste Carnaval em Portugal são duas faces da mesma moeda. Ambos eliminam os marcadores distintivos que delimitam as nações, as civilizações, os indivíduos e as comunidades para abrir caminho à homogeneização. Esta última, claro está, continua no reino das utopias, pois a força natural da diferenciação, para a infelicidade das ideologias modernas, não se irá embora; está cristalizada no nosso ADN evolutivo.

Contudo, haverá quem diga que o AO e o carnaval brasileiro em terras lusas são fenómenos distintos, pois um é promovido diplomaticamente pelo governo e o outro é “natural”, fruto da convivência entre indivíduos. Tal consideração ignora o papel das elites nas sociedades, nomeadamente na formação das consciências colectivas. A inacção ou “neutralidade” da contemporaneidade individualista que é promovida pelos detentores dos poderes políticos e culturais é tão decisiva como o assinar de tratados para definir a ortografia de uma língua. Por outras palavras, todas as ideias ao nível das elites têm consequências directas na forma como a sociedade se vai organizar e consciencializar-se do bem e do mal, do bom e do mau, de si e do outro.

Consequentemente, estes 2 fenómenos são produtos da mesma mundividência ideológica contemporânea, um por acção directa e o outro por licença e promoção de ordens psicológicas que levam a essa aculturação.

Esta importância das elites era já conhecida desde os primórdios da civilização ocidental. Talvez poucos em Portugal o tivessem colocado de forma tão acutilante como Luís de Camões quando escreveu: “O fraco rei faz fraca a forte gente”. E assim é.

Hannah Arendt – A Filosofia Política no Cinema

O filme “Hannah Arendt” (2013) realizado por Margarethe von Trotta conta parte da vida da filósofa política Hannah Arendt; nomeadamente, conta o episódio onde ela cobre o julgamento do ex-Nazi Adolf Eichmann para a imprensa americana; este sendo um alemão que a Mossad capturou na argentina e levou para Israel, onde foi condenado por crimes contra a humanidade e enforcado.

Ao assistir ao julgamento em Israel, Arendt chega à conclusão que aquele homem não era um feroz e odioso anti-semita, mas sim que era apenas um burocrata “patético”, miserável, que seguiu ordens de superiores sem pensar no carácter moral do que estava a fazer ao povo judaico. A esta tendência para praticar “o mal” sem consciência ela apelidou de “banalidade do mal”. Isto apesar de no filme não se opor de forma alguma à condenação à morte do ex-funcionário. Muito pelo contrário, numa determinada cena, ela revela-se a favor de tal processo.

A escrever publicamente sobre o caso, Arendt (uma judia alemã que fugiu para os EUA) enfurece a própria comunidade judaica e o zeitgeist liberal americano ao escrever não só que Eichmann era apenas um pobre ninguém, como atribui alguma culpa a líderes judaicos, acusando-os de não terem lidado bem com as autoridades alemãs. Tal foi entendido como se ela estivesse a culpar a comunidade judaica pelo seu próprio destino, sentido este que ela negou.

Apesar disto, numa cena com um sionista próximo dela que se revelava desiludido com a sua análise escrita, ela responde à pergunta deste sobre se ela não amava o seu povo retorquindo algo como: “Eu não amo o meu povo, só amo os meus amigos próximos”. Nesta frase centra-se boa parte da tensão do filme e revela igualmente o sentido do trabalho de Arendt em filosofia política; mas de forma contra-intuitiva.

O filme deixa-nos a pensar que Arendt era anti-nacionalista (que era) e que não tinha interesse especial no povo judaico mas sim na humanidade. Por outras palavras, ela é apresentada como uma liberal preocupada não com o seu povo mas com o Indivíduo universal. Tal não é exactamente verdade, pois Arendt foi uma activista sionista até uma fase bastante adulta da sua vida, parando o seu activismo ostensivo quando se tornou claro que o Estado de Israel era um etno-Estado armado que visava instaurar a identidade judaica. Isto porque Arendt pertencia à facção mais liberal que defendia  o Estado bi-identitário (judaico e árabe) pacifista. Posição que demonstra não só uma fé considerável no valor da neutralidade da autoridade (estatal), assim como na capacidade do povo judaico para prosperar mesmo sem ser detentor do que Max Weber apelidou de monopólio da violência legal.

Quem conhece a teoria política de Arendt perceberá facilmente a sua posição. Para ela a comunidade política não deve ter a sua base na tradição e na identidade bio-cultural. Defendia sim uma forma de republicanismo de teor liberal através do qual, perante a liberdade e igualdade de todos os indivíduos, existiria uma democracia deliberativa. Nesta última, através do diálogo permanente, os diferentes grupos culturais e indivíduos gerariam uma nova identidade de diálogo e aceitação. Isto, claro, foram ideias base da teoria do multiculturalismo “liberal” e da democracia deliberativa que mais tarde iriam tornar-se hegemónicas na academia anglo saxónica e ocidental através de autores da teoria crítica como Jurgen Habermas (Escola de Frankfurt) ou como o multiculturalista Will Kymlicka.

Não se tenciona aqui fazer uma crítica a estas teorias ou à posição filosófica-política de Arendt, o facto de Israel ter optado pela soberania identitária já diz bastante sobre a força da natureza e os sonhos do “eterno diálogo” pluralista republicano ou/e parlamentar. Porém, não deixa de ser interessante que o filme em causa tente veicular a imagem de uma filósofa despegada da sua identidade. Certamente que, como pensadora, Arendt tinha ideais igualitários; casou inclusive com um activista comunista alemão, e esses ideais influenciaram a forma como encarou os desenvolvimentos de Israel; mas, na realidade, toda a filosofia dela é influenciada pela sua génese, pela sua vivência e pelos apelos da sua comunidade; uma filosofia que estava ajustada a estes mesmos apelos nos países ocidentais onde viveu, mas que gerou dilemas insanáveis quando aplicada a Israel.

Este é um filme que vale a pena visualizar pela sua dinâmica filosófica e também emocional. Contudo, ao tentar passar a imagem de uma Arendt despegada da sua identidade, levanta muitas dúvidas em relação à pergunta que Sérgio Godinho popularizou: “pode alguém ser quem não é?”. No caso da filósofa em causa, provavelmente não.

Hierarquia e Praxe

A problemática da praxe académica em Portugal parece não ter fim. As discussões tornam-se inflamadas e, como em quase tudo na vida, as emoções tomam o controlo da situação. Os argumentos são já conhecidos, mas pode-se dizer genericamente que os que são contra a praxe consideram que esta viola o sentido de dignidade dos praxados (por vezes até a sua integridade física) e aqueles que estão a favor salientam o poder da tradição e a utilidade da praxe para incutir valores positivos de abnegação, sacrifício e respeito pela hierarquia social.

Devo dizer que por norma estou do lado das tradições. De um ponto de vista institucional, as tradições tendem a representar estruturas sociais hierárquicas onde é definido quem tem autoridade e a direcção que essa autoridade deve tomar. Se o Homem é um animal político, como Aristóteles postulou, e, sendo os homens desiguais nas suas composições, a hierarquia é uma virtude social, especialmente quando informada pela tradição. Porém, ao contrário de alguns tradicionalistas, não considero que a tradição deva ser absoluta. Parece-me evidente que algumas tradições degeneram; deixam de servir o propósito que serviam quando foram geradas e, em última instância, deixam de servir os interesses da comunidade, operando contra a sua perpetuação. A praxe académica (nos moldes actuais) parece-me ser um desses casos.

 Para explicar a minha posição é preciso aferir a importância, assim como a simbologia, da hierarquia social. Recorrendo às noções clássicas de hierarquia na Grécia antiga, a sua função é a de criar ordem colocando os melhores homens, aqueles com elevado carácter e capacidades, em lugares de responsabilidade para benefício da polis, ou seja, da comunidade. A hierarquia ganha significado quando aqueles que estão em lugares de autoridade servem um propósito comunitário positivo.

A submissão perante os detentores da autoridade é justificada através do exemplo positivo por parte destes últimos. Estes terão sempre de ser aristocratas de espírito; homens virtuosos e excepcionais que não se confundem com as fraquezas gerais. São eles que dão e são o exemplo social. São também eles que impõem a ordem, que punem os transgressores da boa conduta e que incutem uma mentalidade de sacrifício e lealdade à comunidade política e social.

Tudo isto deveria estar presente na simbologia e na praxis da praxe académica. Na realidade, não está. A autoridade hierárquica serve para incutir e velar pelos bons comportamentos sociais, mas não para humilhar os subordinados à priori como forma de atingir esse fim. A título de exemplo, a selecção marcial dos melhores homens não deve incutir uma simples capacidade para ser humilhado, mas sim capacidade de sacrifício em prol da comunidade pela qual se luta, o que são 2 conceitos consideravelmente diferentes. Ademais, incutir confiança pessoal no “eu” e no “nós” é vital para uma saudável tradição. Isto não se adquire a colocar jovens a pastarem de quatro como animais ou a esfregarem-se em estrume para o gáudio geral.

Outra função da autoridade é a de exigir excelência de comportamento social, a subida acima do animal. Se existe virtude em ter práticas que incutam sentido de abnegação em prol da hierarquia comunitária, não existe qualquer virtude em ligar esse processo a actos de degeneração e humilhação gratuita para satisfazer as emoções mais primárias e animalescas dos “superiores”. É precisamente por causa de demonstrações de poder hierárquico usadas para satisfação emotiva primária que vivemos numa era onde liberais (anti-Estado) e socialistas (anti-capital) digladiam-se para serem os melhores “anti-autoritários” do burgo. Mas a hierarquia não foi sempre assim, nem é a sua génese, tal como a história da civilização ocidental pré revolução francesa atesta.

Depois, atesto que os praxantes não são em média os detentores da virtude meritocrática. Não é assim de estranhar que existam queixas no sentido em que os melhores universitários, as melhores mentes, passam por humilhações às mãos de estudantes medíocres (mas cheios de energia emocional) que se aproveitam da massificação do ensino superior. Mais uma vez, onde não há excelência não pode haver autoridade legítima.

Em termos sociológicos, as elites são responsáveis por boa parte do destino para onde as comunidades se dirigem. Para o bem ou para o mal, as grandes sociedades tiveram, no passado ou no presente, grandes elites que souberam controlar as tradições. Percebendo onde é que elas fazem sentido, mas também percebendo pontualmente quando elas são nocivas à sociedade. A praxe não é nociva porque pode violar a integridade física dos alunos, certamente que essa não é a regra, caso contrário já teria sido proibida como o tabaco ou outras práticas nocivas. Ela é nociva a um nível muito mais importante que é o da simbologia social. Numa sociedade onde a autoridade está cada vez mais degradada devido à ausência de selecção virtuosa de elites políticas, a praxe é mais um elemento que, ao nível da simbologia, dá razão a todos os que pregam que a autoridade não pode ser mais do que risota, malícia e humilhação. Não é verdade; e como tal, a praxe é nociva essencialmente ao nível da psicologia social. Mais um elemento de fractura numa sociedade onde a coesão social se degrada a uma velocidade voraz.

Sobre os 10 filósofos que mais influenciam o discurso público

Quem quiser perceber o porquê de o igualitarismo moral dominar de forma hegemónica a modernidade pode olhar para esta lista dos 10 filósofos que mais influenciam o discurso público. Temos presentes todas as facções do igualitarismo que grassa o ocidente: o universalismo redentor de Peter Singer, o marxismo assumido de Dworkin, o marxismo não assumido de Habermas, o feminismo de Nussbaum, a luta em defesa do seu grupo étnico de Appiah e West (que são mais activistas políticos identitários do que filósofos), o “desenvolvimentismo” mundial igualitário de Sen (autor que demonstra brilhantismo no campo da filosofia da economia), o obscuro Humberto Eco, o comunitarismo de Michael Sandel por quem eu nutro simpatia apesar do seu igualitarismo que vejo como algo incoerente e, por fim, o Dennett, cujas perspectivas evolutivas são interessantes mas que adquire fama mais por causa do seu estatuto de “novo ateísta”.

Esta lista não podia resumir melhor o ocidente actual: irreligioso, mais preocupado com o outro do que consigo mesmo, a confundir ideias particulares com universais, a destruir o valor dos papeis tradicionais, sem identidade, sem memória histórica e, com esta literatura a predominar, sem futuro.

Top 10 Public Philosophers

“Arqueofuturismo”: a Revisão

O livro do francês Guillaume Faye parece ter sido escrito especialmente para quem não é liberal nem socialista, mas também para quem nem sempre está à vontade nos actuais círculos conservadores; esta obra é assim uma fonte de novas filosofias que oferece uma visão marcadamente diferente do mundo.

Faye é um dos pensadores de referência daquilo que se convencionou chamar a “Nouvelle Droite” (nova direita europeia). Como todos os pensadores que arriscam pensar fora dos cânones ideológicos estabelecidos, Faye é polémico e, tal como outros no seu tempo, consegue provocar praticamente todos os campos de pensamento político.

O “Arqueofuturismo” (edição em inglês: Arktos 2010) é uma obra que reflecte a aplicação de várias filosofias aos desafios contemporâneos, nomeadamente de Nietzsche, Aristóteles, Carl Schmitt, entre outros. É essencialmente um conjunto de textos que visam ultrapassar o igualitarismo, a desvirilização e a falta de amor próprio que o ocidente apresenta. Para tal, Faye utiliza a “filosofia do martelo” que Nietzsche celebrizou, “esmagando” as ideias que considera que devem ser esmagadas, mesmo que tal implique que se tenha de alterar radicalmente os paradigmas actuais.

Arqueofuturismo

O conceito filosófico a que o autor chama de Arqueofuturismo é a ideia de que as virtudes do tradicionalismo e do futurismo devem ser fundidas de forma a atingir uma visão sólida de futuro. Do sector tradicionalista (Arqueo) deve-se estimar os valores clássicos de virtude, autoridade, lealdade, coragem, identidade e altruísmo comunitário. Do sector futurista deve-se abraçar a vontade de quebrar barreiras tecnológicas e apontar para desafios progressivamente maiores. Esta síntese é necessária por várias razões: 1) as tradições normalmente revelam a forma mais sustentada de viver; 2) as tradições por vezes contêm vírus e necessitam de serem revistas sob perigo de já não servirem a sobrevivência das sociedades perante novos desafios; 3) são os grandes desígnios futuros que mobilizam os grandes homens e os grandes povos.

Por tudo isto, torna-se imperativo saber que virtudes tradicionalistas manter e o que abraçar nas virtudes futuristas. Ao desenvolver esta síntese, Faye postula uma mentalidade que acredita ser aquela que permitirá ao ocidente inverter o actual declínio.

O mundo a duas velocidades

Outra ideia chave do autor é a ideia de que o grande problema económico e civilizacional dos nossos tempos advém do postulado igualitário de que todo o mundo poderá e deverá viver estilos e níveis de vida semelhantes. Segundo Faye, não só tal é  impossível como seria devastador para os recursos do planeta, rejeitando assim a ideia liberal de que a criatividade humana é suficiente para resolver todos os problemas de forma igualitária (i.e. para o “bem” de todos). Faye não rejeita de todo a criatividade humana, muito pelo contrário, mas reconhece que ela está distribuída desigualmente e a ideia de que essas mentes criativas deverão estar ao serviço do igualitarismo advém do que Nietzsche apelidava de moralidade de escravo. Por conseguinte, essas mentes deviam estar concentradas na superação do Homem e não em formas de igualitarizar todo o mundo com olhos postos no mínimo denominador comum. Assim, segundo a sua filosofia, Faye reconhece que existirão 2 modos de vida igualmente legítimos: um modo tradicionalista com uma vida rural segundo as tradições locais e outro futurista onde a superação (bio)tecnológica será a regra. Tal como ele colocou a questão: para os primeiros René Guénon, para os segundos Nietzsche.

A convergência de catástrofes e a Eurosibéria

Faye antevê uma convergência de catástrofes na Europa que levarão a mudanças radicais e que terminarão com o actual paradigma filosófico e social da modernidade. Às anunciadas crises económicas e ao colapso do Estado Social juntar-se-á um tremendo conflito de civilizações, semelhante ao que Samuel Huntington previu. Porém, estes conflitos irão ocorrer no coração da Europa, primordialmente entre os nativos europeus e as comunidades muçulmanas recentemente imigradas que estão em clara expansão demográfica.

O autor francês prevê que quando este choque civilizacional acontecer, os europeus irão (através da cooperação) fortalecer psicologicamente a sua identidade e reaver as suas terras ancestrais em território europeu. Desta forma, após o conflito, a identidade europeia poderá ser usada para unir o continente sob uma voz política num etno-império de regiões autónomas que irá de Lisboa a Vladivostok. Tudo isto é justificado extensivamente em termos geopolíticos, justificações essas onde consta o declínio do poder  militar Americano (cujo país se irá fragmentar) e onde a ajuda Russa aos nativos europeus no conflito no coração da Europa determinará a união imperial a que Faye chama de Eurosibéria (e que os Europeus denominarão de “Great Homeland”).

A doutrina da média dourada (ou do meio-termo)

Um dos pontos fortes da obra está na capacidade que o autor teve de articular o que existe de obsoleto no actual modelo ideológico dos Estados-nação ocidentais: vivem de memórias do passado mas estão demograficamente inseridos no cosmopolitismo individualista que destruiu já a “cara” identificativa das diversas nações. As suas sugestões políticas são no fundo o traçar de um novo rumo para o ocidente, agora que se tornou evidente que o actual modelo está em declínio.

O maior risco que Faye correu foi o de tentar prever o que se irá passar, identificando também os resultados desses eventos. Se tivesse escrito apenas sobre a filosofia política do Arqueofuturismo, estaria num lugar intelectualmente bem mais seguro; contudo, a necessidade de correr riscos sente-se a cada frase do autor. Ao traçar cenários de futuro, Faye não está a advogar, como Karl Marx advogou, que existe um destino científico inevitável e determinado, mas sim que perante os desafios que se avizinham (e que ele identificou), uma mentalidade arqueofuturista é a que melhor servirá a civilização.

Muitas das objecções à exequibilidade do modelo da Eurosibéria são bem respondidas no livro; o principal desafio seria manter o equilíbrio das sociedades tradicionalistas e futuristas dentro do respectivo bloco, principalmente no modelo de livre mercado interno que o autor defende. Tema que penso merecer um maior desenvolvimento futuro.

Por fim, apesar do olhar político e analítico que Faye apresenta, “Arqueofuturismo” é uma obra que visa inspirar moralmente. Nesse sentido, aponta para o futuro sem medo de apontar alto demais. O autor percebe que este apontar vertical é o motor motivacional humano; por outras palavras, Faye conhece a doutrina da média dourada Aristotélica e aplicou-a: ser moderado é ser radical quando os tempos o pedem.

O Conservadorismo é uma ideologia?

Segundo o pensador conservador americano Russell Kirk, o conservadorismo não é uma ideologia. Para Kirk, tal deve-se ao facto de não existir um livro com a doutrina do conservadorismo, nem existir O autor do conservadorismo; existindo assim vários conservadorismos. Kirk vê-se como representante de um corpo de sentimentos e não de uma doutrina. O conservadorismo é assim encarado como uma (pré-)disposição e não uma lista de regras escritas em pedra. Esta é uma visão comum em círculos conservadores e entendida desta forma, tem a sua própria força lógica.

Pessoalmente, nunca me senti completamente convencido com esta concepção. Sempre me pareceu que esta era uma ideia que carecia de maior escrutínio. Afinal de contas, também o liberalismo não tem 1 livro, nem tem O autor. É sim um conjunto de valores que, ao serem interpretados, geram diferentes sub-ramos ideológicos; e poucos duvidam que o liberalismo tem carácter ideológico.

O conceito de conservadorismo é relativamente recente e pertence à modernidade que se desenhou a partir da revolução francesa. Entendido no seu sentido geral, o sentimento conservador presente em autores como Maistre (França) ou Burke (Reino Unido), centra-se necessariamente na conservação dos valores pré-revolução francesa perante o triunfo do liberalismo. Desta forma, o termo conservadorismo baseia-se numa atitude reaccionária de oposição aos avanços da modernidade ocidental. De Maistre a Burke, de Spengler a Nietzsche, todos eles reagem intelectualmente contra o triunfo do individualismo liberal e defendem os valores pré-revolucionários da honra, aristocracia, excelência de virtude, desigualdade natural, particularismo moral e autoridade natural. Por outras palavras, defendem os valores responsáveis pela grandeza da civilização ocidental; valores estes que, ao serem abolidos, geram o inevitável declínio cultural e físico.

Com o avanço do triunfo do zeitgeist moderno, o termo conservador perdeu significado e aproximou-se de facto desta lógica Kirkiana que postula o conservadorismo como uma (pré-)disposição para a conservação, para preferir o familiar e tradicional ao desconhecido. É desta perda de significado que nascem os actuais “conservadores liberais”, que hoje em dia, inclusive, defendem triunfos da revolução “gramsciana” como o feminismo (light) ou universalismo igualitário do homem (i.e. “interchangeability of Man”). Chegam mesmo a defender estes valores como Os valores conservadores, colocando na categoria de “extremistas” todos os que os contestarem com valores clássicos. Estes novos “conservadores” que pululam pelas crónicas de jornais e blogues, conservam de facto o familiar, mas como o familiar para eles é o paradigma liberal, é isso que eles conservam. Com o problema, claro está, de que quem conserva um paradigma liberal não é um conservador, é um liberal (clássico ou moderno). Da mesma forma, um comunista que queira conservar o comunismo não passa a ser conservador, é simplesmente um comunista a operar no status-quo.

É quando começamos a desafiar a ideia de que o conservadorismo não é apenas uma pré-disposição para conservar o familiar e tradicional que se começa a perceber que talvez exista algo mais do que apenas esse corpo de sentimentos. Por outras palavras, não basta sentir que se quer conservar algo, muito menos aquilo que nos rodeia apenas porque é o que temos, é preciso ter uma ideia (mais ou menos) concreta do que se quer conservar. Russell Kirk parece concordar, especialmente quando coloca substância neste sentimento de conservação. Ele diz-nos que a função de um conservador é “preservar um povo específico, a viver num sítio específico, durante um tempo específico”. Este parece-me ser dos pontos com mais acuidade que este pensador conservador nos deixou. Porém, é legítimo questionar se essa lógica de carácter claramente normativo não terá um teor ideológico.

F. Nietzsche revolucionou o mundo da filosofia moral ao questionar todo o edifício da moralidade iluminista-racionalista. Segundo a perspectiva do filósofo alemão, os valores são criados pelo Homem para o ajudar na sua (bio-)expansão, dominação, vitalidade e sobrevivência. Como tal, apesar de muitos de nós os encararmos como absolutos para efeitos de socialização, eles estão na realidade longe de o serem; e o futuro pertence assim aos criadores que forem capazes de perceber quando é que certos valores já não servem os seus propósitos de crescimento.

O estatuto de Nietzsche como conservador é controverso. Ele é um feroz inigualitário e um defensor do homem nobre e de virtude; ou seja, desenhou a apologia do aristocrata radical. Ele procurava conservar a excelência presente em alguns homens e para o efeito advogava a conservação intransigente das linhas de sangue vitais, de forma a impedir o declínio das capacidades humanas. Se para vários pensadores (como Leo Strauss) Nietzsche é O conservador aristocrata por excelência, para muitos  outros conservadores Nietzsche já não pertence a esse canon (em larga medida devido ao seu perfil iconoclasta).

Desta forma, se os valores não são absolutos, tal significa que os sentimentos de conservação não chegam, é preciso uma construção de valores normativos e uma defesa dos mesmos que permitam que essa preservação seja eficiente. Essa construção de valores poderá ter de ser genericamente ideológica. Ademais, o conservadorismo, ao aceitar por norma os valores religiosos como vitais para a harmonia social, tende a “demitir-se” de fabricar essa “carta” de valores, pois estes pertencem ao domínio religioso. Assim, incorpora-os mesmo que os separe conceptualmente de si mesmo; mas continua a existir “uma carta escrita em pedra” que os conservadores insistem em seguir; sem surpresa, em qualquer sociedade parece existir invariavelmente um farol ideológico/moral que a sustenta, seja de carácter secular ou teológico.

Além do mais, existem traços psicológicos que permitem identificar um pensador como conservador ou com propensões conservadoras, nomeadamente: a defesa do colectivo social como um organismo (as nações Britânicas e Francesas no caso de Burke e Maistre ou o Homem ocidental no caso de Nietzsche ou Spengler), a defesa da ligação de sangue e cultura como vitais para o sucesso ou insucesso politico e social, uma aversão ao igualitarismo e uma aceitação das leis competitivas da natureza. Por outras palavras, quando se constroem valores à volta destas características psicológicas (honra, virtude, lealdade ao grupo, etc…), torna-se quase impossível distinguir o normativo (ideológico) dos sentimentos inatos.

Isto não significa que Russell Kirk não esteja correcto quando se refere a este corpo de sentimentos e esta (pré-)disposição de ver e sentir o mundo. Satoshi Kanazawa,  psicólogo evolutivo da London School of Economics, revela que os sentimentos psicológicos conservadores são não só os mais comuns, mas também aqueles que são naturais, no sentido em que são aqueles que tradicionalmente levaram ao sucesso adaptativo dos povos; mas apesar destas tendências, sabemos que os humanos se deixam apaixonar por valores e ideologias, muitas delas evolutivamente maladaptativas e que, em última instância, podem levar à extinção de povos.

A verdade é que as ideologias são “cartas” de princípios morais que movem os seres humanos, mesmo quando apontam para um céu inatingível. Mais, eles movem os seres humanos precisamente porque os fazem sonhar e os motivam. É provável que o declínio do conservadorismo passe muito por se ter querido afastar dos sonhos ideológicos; por ter sempre sido mais defensivo e reactivo do que pró-activo, criativo e dinâmico; mas tal não é destino; apesar de ter a sua base em sentimentos inatos reais e evolutivos, o conservadorismo podia ganhar em assumir criativamente os seus valores normativos como sendo de vanguarda; isto é, de conservação dos valores de grandeza civilizacional passada mas com vista a atingir grandes feitos futuros.

Desta forma, talvez fosse possível sair definitivamente da modernidade ideológica ocidental e estes sentimentos identificados por Russell Kirk passariam a operar sob uma nova denominação.