Para além do Dia-D

Todos os anos celebramos o “D-Day” (6 Junho 1944). É-nos apresentado de forma maniqueísta como o dia em que os “bons” (Americanos e demais aliados) derrotaram os “maus” (Alemanha e demais aliados). Dizem-nos que é o dia em que começámos a “salvar” a Europa; em que a liberdade venceu a opressão; em que se salvou a civilização ocidental das profundezas da escuridão. Mais, fazem-nos crer como o futuro da civilização (se ele existisse) seria infinitamente pior caso tal dia não tivesse acontecido. Voltaríamos certamente para o barbarismo militante. Assim reza a narrativa.

Já se sabe que a história é escrita pelos vencedores de guerra e desta forma, nós europeus, temos de viver o sonho liberal americano e até tolerar o comunismo como um acidente de percurso economicamente errado mas com boas intenções igualitárias e universalistas. Desta forma, mais depressa celebramos o D-Day, o 28 de Agosto de 1963 de Martin Luther King (“I have a dream!”), a queda do muro de Berlim e todas as causas “aprovadas” pelo “americanismo” do que celebramos as reconquistas europeias de D.Afonso Henriques ou de Carlos Martel; gentes que certamente seriam consideradas pelo liberalismo americano como bárbaras, etnocêntricas, particularistas e anti-liberais.

É relativamente fácil de perceber o que se quer dizer com a ideia de que o D-Day ajudou a “salvar a Europa e a civilização”. Significa que a civilização tem de ser necessariamente um produto saído do iluminismo liberal oitocentista; isto apesar de a civilização ocidental remontar em termos de referências pelo menos até à antiga Grécia (que nunca foi liberal individualista, nem igualitária mesmo nos períodos episódicos de democracia elitista).

A história pode ser constituída por factos; contudo, estes são sujeitos a interpretação, selecção e transformam-se sem surpresa numa ferramenta para manter o sistema de legitimidade ideológica dos actuais regimes ocidentais.

Há quem considere que vivemos numa era vazia, sem ideologias, mas a verdade é contrária: a vitória do que chamam “modelo demo-liberal” foi tão hegemónica que fabrica a ilusão de que não há ideologias a serem aplicadas politicamente, apesar de vivermos em tempos de puritanismo moral (como atesta o politicamente correcto e as celebrações contínuas de causas anti moralidade clássica). A realidade é que continuamos a viver de forma tão fervorosamente ideológica como sempre vivemos. A grande virtude de qualquer ideologia é inculcar-se na psique colectiva sem que esta esteja consciente desse facto.

Contudo, a natureza e as suas forças não se adaptam a ideologias de universalismo utópico e igualitário e começam a esgrimir argumentos em sentido contrário. Quem conhece a realidade europeia no terreno, sabe os conflitos e tensões que as elites europeias (moldadas à semelhança das americanas) criaram. Esse mau estar popular sentiu-se já nas ultimas eleições europeias (2014), onde os povos europeus votaram em massa em partidos que desafiam boa parte dos pressupostos globalistas e anti-identitários em vigência.

A narrativa do “D-Day” faz parte de uma narrativa maior que se ouve todos os dias, desde o sistema de educação até aos blogues e imprensa: que existiram 2 regimes/ideologias que mataram aos milhões (fascismo e comunismo) e que há uma que não só não o faz como ainda salva a “humanidade” dessas mundividências. Tal é inclusive factualmente errado, pois também se matou aos milhões em nome da liberdade e igualdade universal (e.g. revolução francesa, guerra civil americana); e é infrutífero alegar que tal foi feito contra um inimigo, pois há sempre um inimigo em todos os conflitos, por vezes até fabricado.

A história é bem mais complexa do que nos é feito crer e os heróis ou vilões são sempre colocados em perspectiva, trocando por vezes de lugar no tempo. Não é preciso defender esta ou aquela ideologia ou deixar de criticar este ou aquele regime para se perceber que a complexidade está a ser eliminada para fins políticos presentes. Para já, ter esta cautela em mente já seria um grande avanço civilizacional.

Família ou tribo?

Esta questão precisa de ser abordada indo à raiz antropológica e sociobiológica da organização social. O que vem primeiro, a família ou a tribo (família alargada)? A resposta que os conservadores têm dado nos últimos 50 anos tem sido “a família” (com medo que os acusem de r-istas ou f-istas). Mas a organização familiar é uma função da organização do grupo maior; isto é, para o grupo funcionar harmoniosamente como um todo é necessário uma distribuição de funções (normas) familiares para resolver o problema de acção colectiva perante grandes números. É por isso que temos no ocidente famílias monogâmicas quando seria muito vantajoso para muitos homens terem várias mulheres (poligamia), mas tal traria desequilíbrios ao bio-grupo (tensões, desunião, etc…). Desta forma, a disciplina familiar desejada é resultado de uma força maior de selecção de grupo que “obriga” a que este funcione em harmonia. O erro dos conservadores nos últimos 40 anos foi nunca terem definido com exactidão o grupo que visam defender. Ao aceitarem uma espécie de nacionalismo liberal/civil, a mensagem que passam é que qualquer um pode ser parte do grupo (daí ser liberal), desmobilizando assim a razão para a disciplina familiar, que é o sacrifício para um todo concreto e também para um todo como extensão da família. Em suma, não vale muito a pena definir as práticas da família sem definir o grupo que essas práticas servem. Assim, é tão importante definir e delimitar essa mesma comunidade como delinear essas normas familiares. Uma sem a outra não funciona e é por isso que os conservadores têm perdido a luta dos valores familiares em toda a extensão. E vão continuar a perder até definirem correctamente e convenientemente o grupo a que eles se aplicam.

O 25 de Abril e a Liberdade

Segundo a conhecida tese de Samuel Huntington, a terceira vaga de democratizações mundiais começou com a revolução dos cravos no 25 de Abril de 1974 em Portugal. Em retrospectiva, a primeira vaga de democratização ocorreu no século XIX com reformas em direcção ao sufrágio universal em inúmeros países do ocidente, com os EUA à cabeça. A segunda vaga deu-se a seguir à segunda guerra mundial sob a hegemonia vitoriosa americana e sob a derrota militar das forças anti-democráticas europeias do eixo. Portugal iniciou assim a terceira vaga de democratização, o que levou a que, hoje em dia, boa parte dos países da ONU se considerem democracias, pelo menos nominalmente.

Apesar de esta teoria colocar Portugal numa posição de vanguarda, a verdade é que, assumindo que existem eventos inevitáveis na história, a democratização de todo o ocidente era inevitável. Tal deve-se à força desse valor filosófico que desde o fim da segunda guerra mundial está sustentado pelo poder armado americano: a liberdade.

O culto da liberdade estava já há alguns séculos em ascensão e solidificou-se a partir da revolução francesa até que as chamadas “revoluções conservadoras” no século XX se opuseram a ele. Tendo sido estas ideias derrotadas pela força das armas, a democracia vitoriosa e militarmente imponente continuou a expandir-se e a exercer pressão moral até que os últimos resistentes europeus mais relevantes (Portugal e Espanha) caíram. Tal não é surpresa, apenas confirma que a civilização ocidental é uma família onde os eventos importantes, principalmente os vitoriosos, bons ou maus, tendem invariavelmente a alastrar, percorrendo as suas diversas regiões culturais. A ideia de que alguma região ou nação europeia poderá fazer um percurso alheado do resto da família europeia é, em larga medida, uma impossibilidade. O que, aliás, nos é lembrado na emblemática frase do filme “Europa” de Lars von Trier:

“You want to wake up to free yourself of the image of Europa. But It Is Not Possible”.

(Queres acordar para te libertares da imagem da Europa. Mas não é possível)

 Durante os períodos coloniais, várias nações ocidentais criaram a ideia de que eram a sua própria civilização e que não eram já parte do todo Europeu; que podiam ir “sozinhos”, virando as costas aos seus semelhantes; que tinham mais em comum com os seus impérios do que com os povos Europeus. Sem surpresa, não se conseguiram “libertar da imagem da Europa”. Assim, a “Europa”, com a força ideológica americana por trás, trouxe Portugal de volta com o 25 de Abril, sob a capa da “liberdade”.

Na verdade, foi sob a capa da liberdade e da igualdade, pois ambas são faces da mesma moeda. Os partidários demoliberais tendem a enfatizar mais a primeira e os socialistas/comunistas a segunda, mas na realidade não é possível conceptualizar uma sem a outra; isto apesar das incompatibilidades teóricas e práticas entre as duas (o que diz muito dos problemas insolúveis do paradigma iluminista-liberal apontados por Alasdair Macintyre ou Nietzsche).

Por oposição a esta vaga “de liberdade” (armada), os conservadores tradicionais europeus tentaram mostrar que a liberdade só pode revelar-se dentro da tradição etno-cultural e civilizacional; que não existe liberdade sem sentimento de pertença a uma identidade grupal e que a única liberdade não-degenerativa que interessa perseguir é a da transcendência meritocrática do “eu” para algo maior: o colectivo transcendente ou comunitário. Ainda assim, a ideia de “liberdade” do demo-liberalismo prevaleceu, pois não só é mais intuitiva (i.e. “cada um faz o quer”), como também é fácil de aceitar (i.e. “eu faço o que quero”). Contudo, esta liberdade dura apenas enquanto as normas tradicionais estão interiorizadas nos indivíduos; conforme o tempo de liberalização passa, estas deixam de o estar, gerando o progressivo caos ou degeneração para o mínimo denominador comum hedonista. Por outras palavras, muitas gerações de tradicionalismo permitem umas quantas de liberalismo até que as normas de coesão comunitárias se esvanecem e um novo ciclo tradicional terá de começar.

O 25 de Abril trouxe Portugal de novo para Europa (e posteriormente para a União Europeia) sob a égide da liberdade. Contudo, esta liberdade é a mesma que se anula a si mesma. No campo da liberdade de expressão tão relevado pelos “Abrilistas”, gerou-se o fenómeno do politicamente correcto (com origem na Escola de Frankfurt), que é um fenómeno legitimado e promovido pelo regime político e cultural/ideológico com reprodução nos órgãos de comunicação social. Como consequência, poucos são os que realmente dizem aquilo que é politicamente relevante e normalmente esses poucos não chegam perto dos centros de poder. Em termos de participação política, criam-se dificuldades burocráticas e pecuniárias a novas facções partidárias não-alinhadas; mas o controlo dos temas passíveis de serem discutidos (i.e. “agenda-setting”) é fundamental para manter a suposta “liberdade de expressão” dentro dos parâmetros pretendidos.

O resultado final é aquilo que se assemelha ao fim da política (uma espécie de “fim da história” televisionada), onde os debates se resumem a questões económicas e ao vociferar furioso de banalidades que em pouco ou nada invertem o rumo descendente dos portugueses como povo histórico. Este fim da política chegou ao ponto de não ter grandes (ou sequer pequenos) desígnios colectivos, de não ter identidade, de ser uma máquina em piloto automático para maximizar o hedonismo do indivíduo desenraizado.

O 25 de Abril fez-se essencialmente “a favor” dos portugueses da metrópole, mas rapidamente se percebeu que o objectivo da liberdade era desfazer o conceito de Portugal. Se no Estado Novo de carácter imperial se criava a ilusão de que havia só portugueses de Lisboa a Timor, agora já nem portugueses existem, só há a humanidade. Ninguém arrisca sequer a definir o que é um português para efeitos políticos a não ser em roupagem legal. Burocratizou-se o indivíduo para terminar a sua pertença comunitária; pertença essa cujos laços são vistos pelos contemporâneos como pré-modernos ou autoritários. Sim, voltou-se à Europa em 1974, mas a uma Europa que, apesar de apelar à integração europeia, rejeita a sua identidade específica e o seu legado civilizacional clássico; abraçando a ideia de que a paz eterna requer o fim de destinos colectivos que transcendam o “eu”.

Se antes do 25 de Abril existia quem rejeitasse a ideia de Europa em troca de impérios coloniais, agora temos a rejeição da ideia de Europa em troca de “liberdade”. Porém, apesar de mais uma vez nos querermos politicamente libertar da ideia de Europa, “não é possível”.

Ninfomaníaca: a lembrar o que a modernidade quer esquecer

Mark Twain escreveu que “sê tu mesmo” é o pior conselho que se pode dar a alguém. Tal advém de um notório pessimismo antropológico; isto é, advém da ideia de que as nossas Personas (personagens públicas) são, apesar de tudo, melhores do que o verdadeiro “eu” que se esconde atrás delas. Não é certo que Lars von Trier adira a esta ideia de Twain; mas toda a filmografia deste realizador salienta a força do “eu” por oposição à fraqueza da transformação educativa ou ambiental.

O filme “Ninfomaníaca” (2013) de Lars von Trier apresenta a história de Joe, uma ninfomaníaca assumida que narra o curso da sua vida pejada de eventos sexuais perversos. Joe conta a sua história a Seligman, um homem solitário e orientado para o conhecimento teórico que alega ter pouca ou nenhuma experiência sexual (ou até humana). As duas personagens são contrastantes: Joe é uma mulher britânica vivida, dura, calejada ao ponto do infinito, pessimista, politicamente incorrecta e assumidamente emocional; Seligman é um homem de ascendência judaica mas não-religioso, anti-sionista e liberal humanista, que demonstra durante todo o filme praticar a canónica tolerância liberal ao tratar todas as experiências de radicalismo sexual e psicológico de Joe com a maior das naturalidades; como se estas fossem escolhas tão boas ou tão más como quaisquer outras. Afinal de contas, foram escolhidas pela soberania do indivíduo. A título de exemplo, a dada altura, referindo-se à infelicidade de Joe, Seligman sugere em tom crítico que a sociedade condena mais uma mãe que deixa os filhos por causa de sexo do que condena um pai, numa latente alusão à necessidade de mais igualdade de género. Outro exemplo é a defesa de Seligman do politicamente correcto como expressão lógica da defesa democrática das “minorias”; ao que Joe responde violentamente acusando tal ideia de estar pejada de hipocrisia humana.

Todo o filme mostra a decadência absoluta em que Joe mergulha devido aos seus desejos insaciáveis por experiências sexuais, terminando fisicamente debilitada, com um filho que não pode ver e com uma vida na criminalidade. Ao mostrar o preço que Joe paga pelas suas escolhas e ao contrastar a realidade crua com os comentários humanistas e igualitários de Seligman, “Ninfomaníaca” pode ser (e foi) lido como uma crítica conservadora tradicional ao liberalismo da modernidade. Lars vai revelando uma lista de supostas perversões de Joe que aparecem em crescendo e que são apresentadas como produto de uma compulsão incontrolável da libido: de simples sexo no comboio com vários homens, a sexo aleatório e diário com um número incontável de parceiros, a sexo interracial, a masoquismo extremamente violento e a homossexualidade. Apesar de não praticar pedofilia, Joe chega a sugerir que entende os pedófilos, porque eles, tal como ela, carregam um fardo sexual que afecta a decisivamente a sua vida. Mais, acrescenta que os pedófilos que não agem no sentido de concretizar as suas fantasias sexuais merecem uma medalha.

Outro postulado da moral moderna que Lars desafia claramente é o postulado da decisão racional, assim como o da tábua rasa biológica (i.e. a ideia de que nascemos todos iguais e de que é a educação e ambiente que nos define). Apesar da sua atitude decidida, tudo se torna dramático porque se percebe claramente que Joe é mesmo assim, que tem aquela tendência biológica e que não sabe ser de outra forma, como um cão que não pode ser mais do que é, como um pitbull que é tão agressivo que o dono não tem outro remédio senão abatê-lo. O facto de que ela se mostra indiferente ou até orgulhosa do que é, não apaga esta realidade que o filme evidencia. Este tema da inevitabilidade da natureza humana está presente em boa parte das obras do realizador dinamarquês, estando talvez “Dogville” à cabeça; onde a personagem principal (Grace), à semelhança de Seligman, demonstra uma tolerância infinita perante comportamentos socialmente erráticos de inúmeros indivíduos e perante males cometidos contra ela e contra outros; mudando de opinião no fim do filme ao concordar com o seu pai que os “cães não podem ser perdoados apenas porque é da sua natureza serem maus”.

Curiosamente, no meio da sua decadência libertina, Joe tem posições que até se ajustam mais a uma moralidade tradicionalista: rejeita o politicamente correcto, elogia a abstinência de pedófilos, critica ferozmente a hipocrisia da modernidade igualitária e não acredita na re-educação milagrosa do ser humano. Perto do fim, há um breve momento em que ela repensa esta sua atitude e considera que talvez esteja na hora de mudar; mas tal pensamento não dura muito tempo, pois descobre imediatamente que Seligman, o seu novo amigo humanitário, usou essa mesma tolerância para, em conclusão, tentar ter sexo com ela. Ao perceber que esta tolerância significa afinal de contas indiferença para ganho estritamente pessoal, ela termina com a vida de Seligman; tal como Grace em “Dogville”, Joe perde de vez a fé na regeneração educativa.

A grande virtude de Lars von Trier é a sua capacidade para, como diria Nietzsche, olhar para o abismo evitando que este entre dentro de nós. Ou seja, combater monstros sem se transformar num. Este realizador ilustra o que a modernidade baseada na igualdade e liberdade individual prefere esquecer, atacando ferozmente os seus axiomas. Contudo, ele não é um niilista, pois apresenta soluções; apenas não aquelas que a modernidade aprecia. Quer em “Dogville” quer em “Ninfomaníaca”, a moralidade redentora é a da punição: quer Grace quer Joe removem da sociedade aqueles com comportamento anti-sociais. Não é uma novidade antropológica, remover institucionalmente os elementos nocivos à sociedade sempre foi parte da moralidade clássica evolutiva que permite o apurar da cooperação pró-social. Em termos normativos, existe assim uma arqueo-moralidade latente nas obras de Lars von Trier; e “Ninfomaníaca” não é excepção.

A Direcção do Progresso

Sempre que algo acontece que não se enquadra no modelo de progresso da modernidade, chovem comentários de que “não se anda para a frente” ou que é “um retrocesso civilizacional” ou, muito simplesmente, que se estão “a perder os direitos adquiridos”, entre muitos outros comentários que mais não dizem que estamos “a andar para trás”. Estes eventos são conhecidos: se um parlamento votar contra a adopção de crianças por homossexuais, se votar contra propostas de leis feministas ou se se recusar a abdicar das poucas instituições tradicionais que restam, começarão de imediato os coros de indignação progressista.

Isto é extremamente curioso porque dá a entender que existe na população que vocifera uma visão específica da filosofia da história e do progresso. Mais, parece que é a única vigente, sendo que os que a contrariam (nos parlamentos) o fazem mais a medo da mudança do que através de uma visão filosófica específica. Um pouco a confirmar a piada de que o conservador é aquela criança que primeiro não quer entrar na banheira mas depois já não quer sair de lá.

Esta actual visão dominante nas massas é a visão linear do progresso histórico, onde a humanidade caminha linearmente em direcção à absoluta liberdade individual que dará lugar ao racionalismo iluminado e onde os indivíduos serão donos absolutos de si mesmo e do seu pensamento. Serão assim livres das amarras comunitárias e tradicionais. Esta visão considera que a história caminha sempre para melhor e que quaisquer problemas que surjam são apenas obstáculos ao destino teleológico da liberdade e igualdade individual ou da Razão; obstáculos a serem ultrapassados, claro. Na visão linear do progresso enquadram-se autores como Hegel, Kant, Marx ou, mais recentemente, Fukuyama e o seu “fim de história liberal democrata”. Contudo, existem outras visões diferentes, como a visão cíclica da história (de que Oswald Spengler é um representante) que vê os eventos históricos civilizacionais como organismos que nascem, prosperam, definham e morrem.

Existe também a visão esférica da história (a qual me convence bastante mais), que vê os eventos da história como esferas que podem ir em qualquer direcção e que estão sujeitas a diversas forças que empurram em direcções antagónicas. Esta será uma visão onde não há necessariamente uma lógica teleológica mas sim uma luta de poder e vontades. Sem surpresa, Nietzsche foi um dos que criticou ferozmente a lógica da progressão linear da história. Desta forma, há vencedores e vencidos, há aqueles que ficam para escrever a história e os que se extinguem colectivamente por falta de engenho ou vontade. Vivemos numa altura em que, em termos políticos, é “proibido” questionar se a libertação acrítica dos indivíduos de um grupo pode levar ao fim histórico deste.

Mas como é que tantos indivíduos, principalmente na classe média, aderem a uma visão específica da história? Especialmente sabendo-se que esta não é a única que foi pensada. A resposta mais simples é que o liberalismo “iluminado” domina a moralidade das elites, que, por sua vez, através do domínio das instituições políticas e culturais, difunde essa visão moral como a única que está correcta. Por outra palavras, a doutrinação funciona e, apesar dos seus limites, sempre funcionou. A esmagadora maioria daqueles que fazem comentários a queixarem-se de que “estamos a andar para trás” estão a pensar dentro dos moldes da filosofia do progresso linear, mas é mais do que certo que nunca nenhum deles parou para ler sobre a lógica em si ou para a questionar; os seus comentários são naturalmente pavlovianos; ou seja, Kant vive nas suas mentes, depurado e simplificado pelos agentes político-culturais que leram de facto o autor alemão (assim como os demais autores do iluminismo) e que veiculam a sua moralidade todos os dias à sociedade.

Os detractores mais cépticos deste processo por vezes queixam-se de que estamos cada vez mais a entrar num totalitarismo humanista onde as elites impõem à força a “libertação e igualdade” do indivíduo. Queixam-se que tal é uma absoluta contradição. Contudo, não se deviam surpreender; já o próprio Kant considerava que a libertação do indivíduo necessitava de despotismo iluminado e que através da “educação” (i.e. doutrinação), do cosmopolitismo imposto e da paz eterna se poderia atingir esse fim. Tudo o que está a acontecer foi já pensado antes; confirmando a velha máxima de John M. Keynes que mesmo os homens que se pensam pragmáticos e livres de ideologias são escravos de um qualquer pensador. Esta escravidão é provavelmente a tragédia da visão linear da história e do progresso.

Carnavais

Passou mais um Carnaval. Ligámos a televisão e deparámo-nos com um Portugal “brasileiro” em inúmeras das suas localidades; esse espectáculo deslocado onde portuguesas semi-nuas tentam emular uma cultura de carácter afro-brasileiro com o clima errado e com a génese errada. O resultado agradará a alguns com certeza, afinal de contas nunca foram poucos os que quiseram ter licença para ver tanto com custos tão baixos. Isto é especialmente verdade num país com tradição católica onde a formalidade e o pudor imperaram em termos comparativos (i.e. aquilo que a new left gramsciana chamaria de cultura autoritária ou castradora).

Pois bem, tudo isso está a mudar; e no carnaval português “brasileiro” já pouco há a esconder ou a conter. Tal não é apenas uma perda de identidade, é igualmente um lento mudar de paradigma que aceita de bom grado o que é relaxado e rejeita tudo o que implique disciplina e civilização. Assim, não é surpreendente que não seja preciso nenhum acordo ortográfico (AO) ao nível da aculturação para que certos comportamentos culturais sejam absorvidos, substituindo os tradicionais e autóctones. Ao contrário do AO, não é preciso nenhum tratado entre países, basta a televisão, a promovida ideologia da identificação com a “humanidade” e um fascínio pelo “outro”; raramente o “outro” que tem disciplina, mas sim o “outro” que oferece um modelo mais hedonista e materialista; e assim será até que o hedonismo se esgote em si mesmo.

O AO e a aculturação deste Carnaval em Portugal são duas faces da mesma moeda. Ambos eliminam os marcadores distintivos que delimitam as nações, as civilizações, os indivíduos e as comunidades para abrir caminho à homogeneização. Esta última, claro está, continua no reino das utopias, pois a força natural da diferenciação, para a infelicidade das ideologias modernas, não se irá embora; está cristalizada no nosso ADN evolutivo.

Contudo, haverá quem diga que o AO e o carnaval brasileiro em terras lusas são fenómenos distintos, pois um é promovido diplomaticamente pelo governo e o outro é “natural”, fruto da convivência entre indivíduos. Tal consideração ignora o papel das elites nas sociedades, nomeadamente na formação das consciências colectivas. A inacção ou “neutralidade” da contemporaneidade individualista que é promovida pelos detentores dos poderes políticos e culturais é tão decisiva como o assinar de tratados para definir a ortografia de uma língua. Por outras palavras, todas as ideias ao nível das elites têm consequências directas na forma como a sociedade se vai organizar e consciencializar-se do bem e do mal, do bom e do mau, de si e do outro.

Consequentemente, estes 2 fenómenos são produtos da mesma mundividência ideológica contemporânea, um por acção directa e o outro por licença e promoção de ordens psicológicas que levam a essa aculturação.

Esta importância das elites era já conhecida desde os primórdios da civilização ocidental. Talvez poucos em Portugal o tivessem colocado de forma tão acutilante como Luís de Camões quando escreveu: “O fraco rei faz fraca a forte gente”. E assim é.

Hannah Arendt – A Filosofia Política no Cinema

O filme “Hannah Arendt” (2013) realizado por Margarethe von Trotta conta parte da vida da filósofa política Hannah Arendt; nomeadamente, conta o episódio onde ela cobre o julgamento do ex-Nazi Adolf Eichmann para a imprensa americana; este sendo um alemão que a Mossad capturou na argentina e levou para Israel, onde foi condenado por crimes contra a humanidade e enforcado.

Ao assistir ao julgamento em Israel, Arendt chega à conclusão que aquele homem não era um feroz e odioso anti-semita, mas sim que era apenas um burocrata “patético”, miserável, que seguiu ordens de superiores sem pensar no carácter moral do que estava a fazer ao povo judaico. A esta tendência para praticar “o mal” sem consciência ela apelidou de “banalidade do mal”. Isto apesar de no filme não se opor de forma alguma à condenação à morte do ex-funcionário. Muito pelo contrário, numa determinada cena, ela revela-se a favor de tal processo.

A escrever publicamente sobre o caso, Arendt (uma judia alemã que fugiu para os EUA) enfurece a própria comunidade judaica e o zeitgeist liberal americano ao escrever não só que Eichmann era apenas um pobre ninguém, como atribui alguma culpa a líderes judaicos, acusando-os de não terem lidado bem com as autoridades alemãs. Tal foi entendido como se ela estivesse a culpar a comunidade judaica pelo seu próprio destino, sentido este que ela negou.

Apesar disto, numa cena com um sionista próximo dela que se revelava desiludido com a sua análise escrita, ela responde à pergunta deste sobre se ela não amava o seu povo retorquindo algo como: “Eu não amo o meu povo, só amo os meus amigos próximos”. Nesta frase centra-se boa parte da tensão do filme e revela igualmente o sentido do trabalho de Arendt em filosofia política; mas de forma contra-intuitiva.

O filme deixa-nos a pensar que Arendt era anti-nacionalista (que era) e que não tinha interesse especial no povo judaico mas sim na humanidade. Por outras palavras, ela é apresentada como uma liberal preocupada não com o seu povo mas com o Indivíduo universal. Tal não é exactamente verdade, pois Arendt foi uma activista sionista até uma fase bastante adulta da sua vida, parando o seu activismo ostensivo quando se tornou claro que o Estado de Israel era um etno-Estado armado que visava instaurar a identidade judaica. Isto porque Arendt pertencia à facção mais liberal que defendia  o Estado bi-identitário (judaico e árabe) pacifista. Posição que demonstra não só uma fé considerável no valor da neutralidade da autoridade (estatal), assim como na capacidade do povo judaico para prosperar mesmo sem ser detentor do que Max Weber apelidou de monopólio da violência legal.

Quem conhece a teoria política de Arendt perceberá facilmente a sua posição. Para ela a comunidade política não deve ter a sua base na tradição e na identidade bio-cultural. Defendia sim uma forma de republicanismo de teor liberal através do qual, perante a liberdade e igualdade de todos os indivíduos, existiria uma democracia deliberativa. Nesta última, através do diálogo permanente, os diferentes grupos culturais e indivíduos gerariam uma nova identidade de diálogo e aceitação. Isto, claro, foram ideias base da teoria do multiculturalismo “liberal” e da democracia deliberativa que mais tarde iriam tornar-se hegemónicas na academia anglo saxónica e ocidental através de autores da teoria crítica como Jurgen Habermas (Escola de Frankfurt) ou como o multiculturalista Will Kymlicka.

Não se tenciona aqui fazer uma crítica a estas teorias ou à posição filosófica-política de Arendt, o facto de Israel ter optado pela soberania identitária já diz bastante sobre a força da natureza e os sonhos do “eterno diálogo” pluralista republicano ou/e parlamentar. Porém, não deixa de ser interessante que o filme em causa tente veicular a imagem de uma filósofa despegada da sua identidade. Certamente que, como pensadora, Arendt tinha ideais igualitários; casou inclusive com um activista comunista alemão, e esses ideais influenciaram a forma como encarou os desenvolvimentos de Israel; mas, na realidade, toda a filosofia dela é influenciada pela sua génese, pela sua vivência e pelos apelos da sua comunidade; uma filosofia que estava ajustada a estes mesmos apelos nos países ocidentais onde viveu, mas que gerou dilemas insanáveis quando aplicada a Israel.

Este é um filme que vale a pena visualizar pela sua dinâmica filosófica e também emocional. Contudo, ao tentar passar a imagem de uma Arendt despegada da sua identidade, levanta muitas dúvidas em relação à pergunta que Sérgio Godinho popularizou: “pode alguém ser quem não é?”. No caso da filósofa em causa, provavelmente não.