Não Somos Todos Federalistas

Previsivelmente, chegámos a um ponto onde se torna claro que só existem duas soluções para Portugal: a) sai do euro e recupera a sua autonomia política e económica ou b) perde o seu estatuto como país independente e aceita a centralização federalista dos Estados Unidos da Europa.

As análises sérias de investigadores económicos revelam todas o mesmo, que o crescimento económico necessário para evitar o defaultportuguês é simplesmente inatingível mesmo nos sonhos mais utópicos. Ao progressivamente tomarem consciência desta realidade, os nossos comentadores de serviço na imprensa e os representantes políticos abandonaram a causa interna de Portugal, visto que o nosso futuro depende cada vez menos de nós, e viraram-se para o salvamento do projecto de centralização europeia, ou por outras palavras, para o euro.

Dizem-nos agora que a tragédia do euro foi causada pelas agências de rating ou por americanos desejosos de ver o euro cair, e ainda que o euro não tem problemas de maior tirando uns quantos países na periferia. O problema desta ideia é que não é apenas a periferia europeia que está no caminho para o default, mas sim toda a Europa do sul (o próximo será a Itália) e alguns do norte como a Irlanda e quem sabe a Bélgica. Desta forma, a solução para o problema, dizem-nos, é a criação dos eurobonds: a emissão de MAIS dívida “Europeia” a baixos juros que implica a centralização federal do poder económico em Bruxelas, deixando todos os países dependentes desta.

No meio destas virtualidades, ninguém tem 5 segundos para falar do papel do Banco Central Europeu como o grande responsável pela injecção de crédito nas dívidas públicas europeias, ou para falar da sua total falta de independência política ao decidir comprar obrigações de Estados europeus que há muito estão na bancarrota apenas para salvar o projecto do euro.

Por todo o mundo, não há pudores em proferir que o euro é um projecto falhado devido ao BCE e às elites políticas europeias que criaram um monopolista monetário, mas em Portugal diz-se que a causa dos problemas vem do “outro”, do inimigo, daquele que não vemos porque está do outro lado do atlântico, mas que calculamos que nos quer mal.

Se dúvidas existiam, agora tornou-se claro. A grande maioria dos nossos representantes políticos e demais imprensa deseja ardentemente o fim de um Portugal autónomo e a construção de uma Europa federal. Agora que chegámos à encruzilhada entre reaver a soberania portuguesa ou acabar com ela de vez, os opinantes locais não têm qualquer problema em optar pela segunda opção, usando o pretexto do “ataque” das agências de rating para justificarem a “mão forte” da União Europeia, ou, como eu já ouvi antes, a necessidade de um D. Sebastião europeu.

A defesa do federalismo europeu é feita até por aqueles que defendem o mercado livre e o liberalismo, pois temem os proteccionismos nacionais. Contudo, é importante salientar que o mercado livre é uma componente fundamental do liberalismo, mas não é a única vertente do mesmo. A liberdade dos indivíduos é maximizada quando o poder está o mais próximo possível destes, não só porque têm um maior controlo sobre os agentes políticos, mas também porque podem votar com os pés em busca de melhores condições noutros Estados soberanos (sempre que se sentirem injustiçados no seu sistema político). Acreditar num leviatã europeu distante, benevolento e defensor do livre mercado colide com o princípio de cepticismo em relação ao poder que caracteriza o liberalismo clássico.

A exemplificar esta onda de eurofilia, está uma petição do supostamente imparcial jornal “i” que declara guerra “a todos os que querem destruir o projecto europeu”. Tal parece sugerir que os portugueses e europeus estão dispostos a defender este projecto europeu contra ameaças externas. Contudo, como este projecto europeu não é um simples acordo de livre mercado entre europeus, o jornal “i” arrisca-se a comprar uma guerra com milhões de portugueses e europeus que rejeitam o federalismo deste projecto e que não desejam abdicar das soberanias dos seus países.

Porque ao contrário da doutrina que é veiculada na imprensa todos os dias, os europeus não são todos federalistas e têm boas razões para não o serem.

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