Surpresa: A Grécia Ainda é um País Soberano

Confesso que não esperava esta opção do primeiro ministro grego de pedir um referendo sobre a ajuda financeira da UE, perguntando à população se querem aceitar as condições do resgate ou não. Há bastante tempo que vislumbro o fim do euro, embora não há tanto tempo como Milton Friedman, que o vislumbrou logo desde a sua criação, alegando que o projecto da moeda única não iria sobreviver à primeira crise económica. Porém, apesar eu de não contar com este passo, este projecto falhado de base, produto de construção artificial e não de ordem natural, economicamente inviável, teria de partir por algum lado. Não esperava que fosse a democracia directa a parti-lo, mas é possível que seja precisamente por aí que tal irá acontecer.

As elites eurocratas e demais comentadores eurófilos estão indignados: “como é possível que o PM grego tenha colocado um assunto tão importante à mercê da população?” dizem eles. Esta pergunta sustenta-se pela sua crença de que a Grécia já não é um país soberano em que os seus cidadãos tomam as decisões que quiserem, mas sim que a Grécia é já um protectorado da UE e que se tem de comportar como tal para não colocar em perigo o projecto de Jean Monnet e companhia.

Para disfarçarem esta ideia subjacente, tentam convencer o mundo de que a ajuda financeira é de facto uma ajuda que irá evitar uma catástrofe. Contudo, já não conseguem enganar os próprios gregos. Desde que a troika entrou na Grécia a dívida pública grega não pára de subir, para o próximo ano espera-se que atinja os 180% do PIB. Não deixa de ser irónico que a ajuda da UE para combater o excesso de dívida se traduza em ainda mais dívida. Contudo, o novo pacote da UE promete um perdão que irá reduzir a dívida pública dos gregos para o valor igualmente insustentável de 120% em 2020. Isto claro, depois de 9 anos de depressão económica, impostos punitivos e desemprego em potência, e obviamente, se tudo correr conforme o plano eurocrata. Em troca deste plano tão promissor de “perdão”, Bruxelas pede total controlo sobre o país por um tempo tão indeterminado que pode ir de 9 anos até ad aeternum. Isto não é uma ajuda, é uma ostensiva ocupação política de um país.

O PM Papandreou pediu um referendo que no fundo é um referendo à soberania grega. Não acredito nem por um momento que fosse essa a sua real vontade, mas qualquer um de nós na sua posição, a sofrer a pressão da oposição política e de uma população enraivecida com a austeridade imposta, sentir-se-ia com a corda no pescoço ao ponto de ceder. Contudo, o seu “coração” estará com os eurocratas. Por outro lado, as sondagens reveladas mostram que apenas 12.6% da população considera que as “ajudas” da UE são positivas, o que indica que, salvo uma manobra de propaganda gigante, a rejeição das “ajudas” financeiras será uma realidade. Ao rejeitarem as ajudas, os gregos entram em default e certamente sairão do euro para poderem emitir moeda que lhes permita pagar as despesas correntes.

A propaganda eurófila para convencer os gregos a aceitar o pacote de ajuda irá passar pela ideia de que sendo ambas as opções desagradáveis (default/austeridade vs default/saída do euro) a primeira é mais simpática pois terá todo o apoio da UE. Isto apenas mostra a natureza da UE, pois se fosse uma instituição realmente “solidária” e não apenas preocupada em centralizar o seu poder, perceberia que os gregos não podem continuar nesta situação até ao infinito e apoiaria ambas as soluções mediante a vontade grega resultante do referendo. Isto implica apoiar igualmente a saída da Grécia do euro (e segundo os tratados também da UE) dando-lhes condições que minorassem os custos de transição, nomeadamente a manutenção de acordos de livre comércio na UE e apoio negocial para que o default não fosse desordenado.

O caso da Islândia em 2008 também teve os seus catastrofistas que queriam a todo o custo que se salvasse os bancos e se cumprisse o pagamento da dívida ameaçando com um possível apocalipse caso o país não o fizesse. Não convencida pelas ameaças, a população votou a favor do default e sofreu na transição: o PIB caiu 40% e a sua moeda desvalorizou consideravelmente. Porém, recuperaram rapidamente: voltaram ao crescimento económico de 2% ao ano; têm agora um desemprego que ronda os 5% (contra a Grécia com 16%) e, surpresa das surpresas para um país acabado de sair de um default, o custo das obrigações islandesas a longo prazo é de 8%, ou seja, abaixo de países que teoricamente ainda são cumpridores como Portugal ou Grécia.

Não há saída indolor deste processo de dívida indomável; os custos do processo são incalculáveis. Dizer que esta ou aquela solução terá maiores ou menores custos é sempre um exercício especulativo (que normalmente revela o grau de eurofilia do especulador). Contudo, o que não é especulativo é que ao dizerem que não neste referendo os gregos podem recuperar a liberdade para organizarem (ou desorganizarem) a sua casa como querem, sem imposição externa e sem depender de fundos de contribuintes de países terceiros. Se os gregos querem contrair dívida, fugir aos impostos ou comprar carros de luxo a rodos é algo que a eles lhes diz respeito, desde que internalizem as consequências. É esse o preço da responsabilidade que é indissociável da liberdade.

Com o anúncio do referendo, o euro caiu a pique contra o dólar, as taxas de juro das obrigações italianas subiram e o preço do ouro disparou. Este cenário irá piorar à medida que os investidores perceberem que não é possível salvar tantos países em dificuldades e que os países afinal podem de facto sair do euro.

David Hume escreveu que tudo o que os políticos têm para governar é o poder de convencimento sobre o público. A UE nunca o teve, o actual governo grego já o perdeu, e, ou muito me engano, ou este sentimento popular grego espalhar-se-á em breve aos restantes povos europeus. É uma questão de tempo…

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