Os Usos e Abusos da Falácia Naturalista

Quantas vezes não vemos as pessoas rejeitarem à priori estudos, descobertas bio-sociais ou relatos históricos incómodos sobre a natureza humana simplesmente alegando que : “lá porque é assim não significa que tem de ser, podemos mudar se quisermos” ou “estudos há muitos, por isso não vou perder o meu tempo a olhar para esse em particular”.

Para um naturalista como eu que tende a estudar a natureza humana recorrendo à observação das capacidades, tendências e limites do ser humano como parte de um ecossistema em evolução, presenciar este tipo de reacções tornou-se já num lugar comum do meu quotidiano.

Os discordantes que estão academicamente mais informados sabem sempre o que dizer cada vez que um naturalista (sociobiólogo, psicólogo evolutivo, antropólogo, etc…) apresenta evidências desagradáveis sobre a natureza humana: “não podemos cair na falácia naturalista”, ou seja, dizem que não podemos cair na ideia de que lá porque algo é naturalmente assim, tal significa que tenha de ser aceite como regra. Os que não conhecem o conceito dizem exactamente o mesmo, apenas não reconhecem que estão a usar o argumento da falácia naturalista.

Isto, claro, é uma forma de negação dos factos para dar lugar ao sonho, à utopia confortante e, em última instância, à engenharia social.

A falácia naturalista advém do problema “ser-dever ser” (is-ought) que David Hume levantou, e concluiu que mesmo que algo seja factualmente natural não significa que daí se retire qualquer noção moral de bom ou mau. A partir daí, o filósofo George Edward Moore desenvolveu o conceito de falácia naturalista, que postula que o valor moral de algo não é definido pelo que é natural. O exemplo mais marcante usado por ele será porventura a alegação de que a direcção da evolução biológica não é moralmente boa apenas porque é a naturalidade da nossa existência.

A falácia naturalista tem alguma razão, mas em última instância é um argumento estéril. Importa assim perceber esta falácia em termos de organização política e de políticas públicas.

Quem está familiarizado com a sociobiologia e estudos no campo da biologia/genética/psicologia evolutiva, conhece já muitos dos resultados sólidos e consistentes que se acumularam ao longo dos anos: entre eles, que os seres humanos, individualmente e em grupo, variam consideravelmente ao nível do quociente de inteligência (QI), que o QI é, como os temperamentos e traços físicos, essencialmente  hereditário, que o QI é dos mais fortes, senão o mais forte determinante do sucesso económico-social, que os seres humanos, tal como outros animais, são tribais, etnocêntricos, discriminatórios e nepotistas, que este etnocentrismo/nepotismo tem sido confirmado empiricamente sem grandes excepções e explicado em termos evolutivos como a defesa daqueles que partilham mais genes connosco de forma a propagá-los (Inclusive fitness), entre muitos outros resultados incómodos que poderiam ser referidos.

Em termos políticos, ninguém quer abraçar estas evidências e por isso o recorrer à falácia naturalista torna-se num refúgio lógico.  À esquerda, usa-se a falácia naturalista como uma forma de reforço da tábua rasa, isto é, diz-se que estas evidências estão todas erradas ou que são insuficientes, que os seres humanos são todos basicamente iguais e formados pela educação e que “não há nada para ver aqui” e que no caso de serem verdade, a moralidade igualitária deve prevalecer sobre as evidências. Já no campo liberal optimista, a negação (quando não se baseia totalmente na tábua rasa Lockeana) passa por acreditar no poder da “cultura” e do slogan “não há tribos, nem colectivos,  nem forças étnicas, só há o José, a Maria e o Manuel” e se ensinarmos isto às pessoas, se mudarmos a cultura, o mercado resolve os problemas. Neste caso, só os elementos mais cépticos, conservadores e tradicionalistas aceitam que qualquer sistema ou organização política tem de contar com estas tendências humanas naturais, independentemente dos sonhos dos que preferem jogar a carta da falácia naturalista. Políticas públicas que visam coordenar humanos que não existem na prática estão condenadas a falhar.

O erro cometido pelos que depositam uma fé infindável na cultura é considerarem que a cultura não é já de si bio-cultural. Quando dizem “sim, os humanos podem ser assim mas é possível civilizá-los” (i.e. apagar ou esconder essas tendências), estão a apelar para um desligar entre o biológico e o cultural, ou seja, para a divisão Cartesiana do corpo e mente, esquecendo-se que a razão é também um produto biológico, (e.g. se o cérebro se danificar fisicamente o mesmo acontece com a “razão”) tal como António Damásio apontou no livro “O Erro de Descartes”.

Na realidade, se não quisermos viver totalmente isolados, o nosso ambiente é essencialmente formado pelos genes e tendências comportamentais dos outros que nos rodeiam.  É precisamente por isso que se diz que quando queremos comprar casa os 3 critérios devem ser “localização, localização, localização”. Desta forma, a questão “podemos ser quem já não somos de base?” torna-se pertinente quando se trata de avaliar a fé na cultura redentora.

Uma cultura só pode conter elementos que a biologia permita. Por exemplo, nenhuma norma social que implique dar 50 piruetas no ar em vez de dar um aperto de mão irá surgir numa cultura, simplesmente porque os humanos não estão preparados biologicamente para tal. Este é um exemplo hiperbólico, mas o mesmo é válido para os que depositam a fé na educação e consequente desaparecimento dessas tendências naturais observadas através do uso da razão e de uma moralidade racionalmente desenhada.

Dito isto, dentro das possibilidades bio-culturais, a cultura e as normas sociais produzidas na mesma podem ter efeitos que em termos funcionalistas podem ajudar ou prejudicar uma sociedade, e até uma civilização. Por outras palavras, um determinado grupo civilizacional pode extinguir-se devido a práticas culturais mal-adaptativas (alguém lembre o ocidente desta verdade).

Assim, o argumento da falácia naturalista tornou-se no melhor amigo do zeitgeist das massas, igualitário e politicamente correcto em que vivemos. Um contexto onde a ideologia da igualdade se sobrepõe  à realidade, à ciência, ao conhecimento e inclusivamente ao senso comum.

A falácia naturalista tornou-se sinónimo de “eu irei ignorar qualquer evidência que me revelem para que a realidade não se entreponha entre mim e a minha moralidade igualitária pré-estabelecida”. Parafraseando Friedrich Nietzsche:

“A doutrina da igualdade! Não há nada mais venenoso pois parece que é pregado pela justiça ela mesma, quando na realidade representa o fim da justiça. “Igual ao igual, desigual ao desigual” este é um verdadeiro princípio de justiça, e o seu corolário é: “Nunca se tente transformar em igual o que é desigual”.  –  Nietzsche (em O Crepúsculo dos Ídolos)

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