“O Homem Pode Fazer o que Quer, Mas Não Pode Querer o que Quer”

meu último texto sobre os usos e abusos da falácia naturalista deu origem a uma crítica vinda do outro lado do atlântico escrita por Joel Pinheiro. Em suma, nessa crítica, o autor diz-se partidário da falácia naturalista e, concomitantemente, dá os argumentos “standard” a seu favor, criticando a minha posição naturalista.

Talvez por já os conhecer bem, muitos dos argumentos a favor da falácia naturalista já tinham sido antecipados no meu texto inicial, pelo que considero que muitas das críticas de Pinheiro estavam respondidas.

Tal como eu escrevi no meu texto original, a base da argumentação dos proponentes da falácia naturalista é uma profunda crença no valor da igualdade. Como tal, estabeleceram para si mesmo que os humanos são iguais e colocaram o ónus da prova nos que alegam que somos naturalmente e inatamente desiguais.

Curiosamente, a posição deles é a posição do mainstream político e do zeitgeist mediático, presente na força autoritária anti-conhecimento e anti-científica que é o politicamente correcto (PC). Contudo, a tradição popular há muito que sabe que os seres humanos são desiguais e é senso comum que assim seja. Desde sempre que as pessoas disseram e souberam que o X é mais inteligente que Y ou que W é mais forte e bonito que Z, independentemente do contexto.

Como a posição normal é assumir que os humanos são naturalmente desiguais, o ónus da prova devia recair sobre os igualitários que propõem que somos todos iguais ou que somos tábuas rasas prontas a serem moldadas pela educação (nurture). O grande mérito do PC (com origem nos académicos da Escola de Frankfurt) foi ter conseguido transformar a sua assumpção igualitária irrealista na posição standard e deixar o ónus da prova para os outros que discordam. Por outras palavras, os igualitaristas alegam “eu acredito que o Homem é igual, agora prova lá que não é”.

Os cientistas foram assim à procura dessas provas (pelo menos os que não foram despedidos pelo PC por trazerem notícias desagradáveis). Elas chegaram em abundância e continuam todos os dias a chegar à medida que os estudos de genética comportamental vão evoluindo. Os estudos “standard” são os que avaliam gémeos idênticos (partilham 100% do ADN) criados em ambientes distintos e os resultados são conhecidos: tal como Steven Pinker mostrou através de inúmeros estudos, os gémeos idênticos educados em ambientes diferentes são muito mais parecidos uns com os outros em QI (cerca de 80% de hereditariedade genética) , personalidade, interesses e aspecto físico do que as pessoas educadas no mesmo contexto que estejam genealogicamente menos relacionadas. Ou seja, gémeos idênticos criados em ambientes distintos são mais iguais entre si do que pessoas geneticamente menos relacionadas criadas no mesmo ambiente.

Acumularam-se as evidências: surgiram as evidências X, a Y, a Z, entre muitas outras,  mas para os que pediam “provas” nada irá ser suficiente. O “pedir provas”, descobre-se agora, era apenas um truque de retórica. Mesmo quando o ADN puder ser sequenciado na perfeição já identificando os genes e mecanismos que contribuem para as capacidades cognitivas ou capacidades de qualquer outro tipo, a opinião destes dificilmente irá mudar. Esta frase de Joel Pinheiro representa na perfeição a sua geração igualitária:

“Aliás, é gritante a ingenuidade com que Faria aceita resultados altamente polêmicos sobre o comportamento humano, baseado em alguns estudos estatísticos.”

Na realidade, os resultados não são nada polémicos. Há imenso tempo que a comunidade científica envolvida nos estudos aceita que estes resultados são consistentes ao longo do tempo. Claro, a opinião da geração educada no igualitarismo militante dificilmente irá mudar, mas tal como disse Jonathan Haidt a David Sloan Wilson: “apesar de esta geração ter dificuldade em reconhecer a abundância de provas, as próximas gerações já irão olhar para os dados de forma mais desapaixonada reconhecendo-os como naturais e até banais”.

É óbvio que em última instância os igualitários irão apontar para o céu dizendo que a moralidade, como ética superior, não deve contemplar, nem levar em consideração a desigualdade e instintos naturais. Contudo, ignoram que até o nosso desejo pela racionalidade ética é uma pulsão biológica. Tal como Arthur Schopenhauer escreveu: “O homem pode fazer o que quer, mas não pode querer o que quer”.

Mostrar uma natural preferência pela família e nação implica excluir boa parte da humanidade do nosso altruísmo preferencial, que é algo que os igualitários desdenham; e assim percebemos o fascínio contemporâneo do igualitarismo pelo homem universal, transnacional, da espécie humana. Mas não param aí, como a desigualdade natural não deve contar para estabelecer a moral, continuam a estender a sua moralidade igualitária aos animais e os seus direitos, ao planeta (medo do aquecimento global) e em última instância ao universo e alienígenas caso eles surjam.

Há igualmente algo de relevante a dizer do ponto de vista político. Joel Pinheiro diz que já participou brevemente no “O Insurgente”, pelo que é razoável especular que não se considera de esquerda. Contudo, se fosse de esquerda, o seu discurso tinha sido exactamente igual. Mesmo a parte onde se opõe à engenharia social seria corroborada pela esquerda (que nunca define o que faz como “engenharia social”).

Isto explica como a direita foi totalmente aniquilada pelo pensamento de esquerda (nomeadamente da new left). A vitória do pensamento igualitário de esquerda foi tão pronunciado que mesmo a direita não consegue fugir desse paradigma. Sem surpresas, por ter de jogar dentro das regras que a esquerda definiu e impôs, por ter de argumentar dentro de uma moldura (framework) igualitária, a direita está sempre a perder campo político porque não tem a força da coerência e persuasão; e perde de tal forma que se transforma em esquerda; tal como é possível de aferir pelo texto do Joel Pinheiro.

Ademais, Pinheiro acusa-me de ser complacente para com o “mau”. O que para além de ser uma acusação injusta, não é igualmente correcta. O que eu considero é que o desejável se faz dentro da realidade, a partir da realidade, principalmente porque tudo o que é supostamente bom pode ter implicações negativas e vice versa.

Friedrich Nietzsche, com quem terminei o meu último texto, escreveu que o “super-homem” (Übermensch) se fazia a partir do homem biológico, ou seja, a partir do corpo; como tal, qualquer melhoria humana terá de passar pelo próprio corpo, nunca passará por ignorá-lo.

Por fim,  pelo menos eu e o Joel Pinheiro concordamos em algo, o cancelar de algumas limitações do homem passarão certamente pela evolução da tecnologia genética; o que não implica que neste campo o igualitarismo ético tenha de ser necessariamente aplicado.

Porém, no mundo onde habitamos, sem essas tecnologias futuristas e independentemente da moralidade igualitária, a desigualdade natural é destino.

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