O Conservadorismo é uma ideologia?

Segundo o pensador conservador americano Russell Kirk, o conservadorismo não é uma ideologia. Para Kirk, tal deve-se ao facto de não existir um livro com a doutrina do conservadorismo, nem existir O autor do conservadorismo; existindo assim vários conservadorismos. Kirk vê-se como representante de um corpo de sentimentos e não de uma doutrina. O conservadorismo é assim encarado como uma (pré-)disposição e não uma lista de regras escritas em pedra. Esta é uma visão comum em círculos conservadores e entendida desta forma, tem a sua própria força lógica.

Pessoalmente, nunca me senti completamente convencido com esta concepção. Sempre me pareceu que esta era uma ideia que carecia de maior escrutínio. Afinal de contas, também o liberalismo não tem 1 livro, nem tem O autor. É sim um conjunto de valores que, ao serem interpretados, geram diferentes sub-ramos ideológicos; e poucos duvidam que o liberalismo tem carácter ideológico.

O conceito de conservadorismo é relativamente recente e pertence à modernidade que se desenhou a partir da revolução francesa. Entendido no seu sentido geral, o sentimento conservador presente em autores como Maistre (França) ou Burke (Reino Unido), centra-se necessariamente na conservação dos valores pré-revolução francesa perante o triunfo do liberalismo. Desta forma, o termo conservadorismo baseia-se numa atitude reaccionária de oposição aos avanços da modernidade ocidental. De Maistre a Burke, de Spengler a Nietzsche, todos eles reagem intelectualmente contra o triunfo do individualismo liberal e defendem os valores pré-revolucionários da honra, aristocracia, excelência de virtude, desigualdade natural, particularismo moral e autoridade natural. Por outras palavras, defendem os valores responsáveis pela grandeza da civilização ocidental; valores estes que, ao serem abolidos, geram o inevitável declínio cultural e físico.

Com o avanço do triunfo do zeitgeist moderno, o termo conservador perdeu significado e aproximou-se de facto desta lógica Kirkiana que postula o conservadorismo como uma (pré-)disposição para a conservação, para preferir o familiar e tradicional ao desconhecido. É desta perda de significado que nascem os actuais “conservadores liberais”, que hoje em dia, inclusive, defendem triunfos da revolução “gramsciana” como o feminismo (light) ou universalismo igualitário do homem (i.e. “interchangeability of Man”). Chegam mesmo a defender estes valores como Os valores conservadores, colocando na categoria de “extremistas” todos os que os contestarem com valores clássicos. Estes novos “conservadores” que pululam pelas crónicas de jornais e blogues, conservam de facto o familiar, mas como o familiar para eles é o paradigma liberal, é isso que eles conservam. Com o problema, claro está, de que quem conserva um paradigma liberal não é um conservador, é um liberal (clássico ou moderno). Da mesma forma, um comunista que queira conservar o comunismo não passa a ser conservador, é simplesmente um comunista a operar no status-quo.

É quando começamos a desafiar a ideia de que o conservadorismo não é apenas uma pré-disposição para conservar o familiar e tradicional que se começa a perceber que talvez exista algo mais do que apenas esse corpo de sentimentos. Por outras palavras, não basta sentir que se quer conservar algo, muito menos aquilo que nos rodeia apenas porque é o que temos, é preciso ter uma ideia (mais ou menos) concreta do que se quer conservar. Russell Kirk parece concordar, especialmente quando coloca substância neste sentimento de conservação. Ele diz-nos que a função de um conservador é “preservar um povo específico, a viver num sítio específico, durante um tempo específico”. Este parece-me ser dos pontos com mais acuidade que este pensador conservador nos deixou. Porém, é legítimo questionar se essa lógica de carácter claramente normativo não terá um teor ideológico.

F. Nietzsche revolucionou o mundo da filosofia moral ao questionar todo o edifício da moralidade iluminista-racionalista. Segundo a perspectiva do filósofo alemão, os valores são criados pelo Homem para o ajudar na sua (bio-)expansão, dominação, vitalidade e sobrevivência. Como tal, apesar de muitos de nós os encararmos como absolutos para efeitos de socialização, eles estão na realidade longe de o serem; e o futuro pertence assim aos criadores que forem capazes de perceber quando é que certos valores já não servem os seus propósitos de crescimento.

O estatuto de Nietzsche como conservador é controverso. Ele é um feroz inigualitário e um defensor do homem nobre e de virtude; ou seja, desenhou a apologia do aristocrata radical. Ele procurava conservar a excelência presente em alguns homens e para o efeito advogava a conservação intransigente das linhas de sangue vitais, de forma a impedir o declínio das capacidades humanas. Se para vários pensadores (como Leo Strauss) Nietzsche é O conservador aristocrata por excelência, para muitos  outros conservadores Nietzsche já não pertence a esse canon (em larga medida devido ao seu perfil iconoclasta).

Desta forma, se os valores não são absolutos, tal significa que os sentimentos de conservação não chegam, é preciso uma construção de valores normativos e uma defesa dos mesmos que permitam que essa preservação seja eficiente. Essa construção de valores poderá ter de ser genericamente ideológica. Ademais, o conservadorismo, ao aceitar por norma os valores religiosos como vitais para a harmonia social, tende a “demitir-se” de fabricar essa “carta” de valores, pois estes pertencem ao domínio religioso. Assim, incorpora-os mesmo que os separe conceptualmente de si mesmo; mas continua a existir “uma carta escrita em pedra” que os conservadores insistem em seguir; sem surpresa, em qualquer sociedade parece existir invariavelmente um farol ideológico/moral que a sustenta, seja de carácter secular ou teológico.

Além do mais, existem traços psicológicos que permitem identificar um pensador como conservador ou com propensões conservadoras, nomeadamente: a defesa do colectivo social como um organismo (as nações Britânicas e Francesas no caso de Burke e Maistre ou o Homem ocidental no caso de Nietzsche ou Spengler), a defesa da ligação de sangue e cultura como vitais para o sucesso ou insucesso politico e social, uma aversão ao igualitarismo e uma aceitação das leis competitivas da natureza. Por outras palavras, quando se constroem valores à volta destas características psicológicas (honra, virtude, lealdade ao grupo, etc…), torna-se quase impossível distinguir o normativo (ideológico) dos sentimentos inatos.

Isto não significa que Russell Kirk não esteja correcto quando se refere a este corpo de sentimentos e esta (pré-)disposição de ver e sentir o mundo. Satoshi Kanazawa,  psicólogo evolutivo da London School of Economics, revela que os sentimentos psicológicos conservadores são não só os mais comuns, mas também aqueles que são naturais, no sentido em que são aqueles que tradicionalmente levaram ao sucesso adaptativo dos povos; mas apesar destas tendências, sabemos que os humanos se deixam apaixonar por valores e ideologias, muitas delas evolutivamente maladaptativas e que, em última instância, podem levar à extinção de povos.

A verdade é que as ideologias são “cartas” de princípios morais que movem os seres humanos, mesmo quando apontam para um céu inatingível. Mais, eles movem os seres humanos precisamente porque os fazem sonhar e os motivam. É provável que o declínio do conservadorismo passe muito por se ter querido afastar dos sonhos ideológicos; por ter sempre sido mais defensivo e reactivo do que pró-activo, criativo e dinâmico; mas tal não é destino; apesar de ter a sua base em sentimentos inatos reais e evolutivos, o conservadorismo podia ganhar em assumir criativamente os seus valores normativos como sendo de vanguarda; isto é, de conservação dos valores de grandeza civilizacional passada mas com vista a atingir grandes feitos futuros.

Desta forma, talvez fosse possível sair definitivamente da modernidade ideológica ocidental e estes sentimentos identificados por Russell Kirk passariam a operar sob uma nova denominação.

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