Hierarquia e Praxe

A problemática da praxe académica em Portugal parece não ter fim. As discussões tornam-se inflamadas e, como em quase tudo na vida, as emoções tomam o controlo da situação. Os argumentos são já conhecidos, mas pode-se dizer genericamente que os que são contra a praxe consideram que esta viola o sentido de dignidade dos praxados (por vezes até a sua integridade física) e aqueles que estão a favor salientam o poder da tradição e a utilidade da praxe para incutir valores positivos de abnegação, sacrifício e respeito pela hierarquia social.

Devo dizer que por norma estou do lado das tradições. De um ponto de vista institucional, as tradições tendem a representar estruturas sociais hierárquicas onde é definido quem tem autoridade e a direcção que essa autoridade deve tomar. Se o Homem é um animal político, como Aristóteles postulou, e, sendo os homens desiguais nas suas composições, a hierarquia é uma virtude social, especialmente quando informada pela tradição. Porém, ao contrário de alguns tradicionalistas, não considero que a tradição deva ser absoluta. Parece-me evidente que algumas tradições degeneram; deixam de servir o propósito que serviam quando foram geradas e, em última instância, deixam de servir os interesses da comunidade, operando contra a sua perpetuação. A praxe académica (nos moldes actuais) parece-me ser um desses casos.

 Para explicar a minha posição é preciso aferir a importância, assim como a simbologia, da hierarquia social. Recorrendo às noções clássicas de hierarquia na Grécia antiga, a sua função é a de criar ordem colocando os melhores homens, aqueles com elevado carácter e capacidades, em lugares de responsabilidade para benefício da polis, ou seja, da comunidade. A hierarquia ganha significado quando aqueles que estão em lugares de autoridade servem um propósito comunitário positivo.

A submissão perante os detentores da autoridade é justificada através do exemplo positivo por parte destes últimos. Estes terão sempre de ser aristocratas de espírito; homens virtuosos e excepcionais que não se confundem com as fraquezas gerais. São eles que dão e são o exemplo social. São também eles que impõem a ordem, que punem os transgressores da boa conduta e que incutem uma mentalidade de sacrifício e lealdade à comunidade política e social.

Tudo isto deveria estar presente na simbologia e na praxis da praxe académica. Na realidade, não está. A autoridade hierárquica serve para incutir e velar pelos bons comportamentos sociais, mas não para humilhar os subordinados à priori como forma de atingir esse fim. A título de exemplo, a selecção marcial dos melhores homens não deve incutir uma simples capacidade para ser humilhado, mas sim capacidade de sacrifício em prol da comunidade pela qual se luta, o que são 2 conceitos consideravelmente diferentes. Ademais, incutir confiança pessoal no “eu” e no “nós” é vital para uma saudável tradição. Isto não se adquire a colocar jovens a pastarem de quatro como animais ou a esfregarem-se em estrume para o gáudio geral.

Outra função da autoridade é a de exigir excelência de comportamento social, a subida acima do animal. Se existe virtude em ter práticas que incutam sentido de abnegação em prol da hierarquia comunitária, não existe qualquer virtude em ligar esse processo a actos de degeneração e humilhação gratuita para satisfazer as emoções mais primárias e animalescas dos “superiores”. É precisamente por causa de demonstrações de poder hierárquico usadas para satisfação emotiva primária que vivemos numa era onde liberais (anti-Estado) e socialistas (anti-capital) digladiam-se para serem os melhores “anti-autoritários” do burgo. Mas a hierarquia não foi sempre assim, nem é a sua génese, tal como a história da civilização ocidental pré revolução francesa atesta.

Depois, atesto que os praxantes não são em média os detentores da virtude meritocrática. Não é assim de estranhar que existam queixas no sentido em que os melhores universitários, as melhores mentes, passam por humilhações às mãos de estudantes medíocres (mas cheios de energia emocional) que se aproveitam da massificação do ensino superior. Mais uma vez, onde não há excelência não pode haver autoridade legítima.

Em termos sociológicos, as elites são responsáveis por boa parte do destino para onde as comunidades se dirigem. Para o bem ou para o mal, as grandes sociedades tiveram, no passado ou no presente, grandes elites que souberam controlar as tradições. Percebendo onde é que elas fazem sentido, mas também percebendo pontualmente quando elas são nocivas à sociedade. A praxe não é nociva porque pode violar a integridade física dos alunos, certamente que essa não é a regra, caso contrário já teria sido proibida como o tabaco ou outras práticas nocivas. Ela é nociva a um nível muito mais importante que é o da simbologia social. Numa sociedade onde a autoridade está cada vez mais degradada devido à ausência de selecção virtuosa de elites políticas, a praxe é mais um elemento que, ao nível da simbologia, dá razão a todos os que pregam que a autoridade não pode ser mais do que risota, malícia e humilhação. Não é verdade; e como tal, a praxe é nociva essencialmente ao nível da psicologia social. Mais um elemento de fractura numa sociedade onde a coesão social se degrada a uma velocidade voraz.

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