Carnavais

Passou mais um Carnaval. Ligámos a televisão e deparámo-nos com um Portugal “brasileiro” em inúmeras das suas localidades; esse espectáculo deslocado onde portuguesas semi-nuas tentam emular uma cultura de carácter afro-brasileiro com o clima errado e com a génese errada. O resultado agradará a alguns com certeza, afinal de contas nunca foram poucos os que quiseram ter licença para ver tanto com custos tão baixos. Isto é especialmente verdade num país com tradição católica onde a formalidade e o pudor imperaram em termos comparativos (i.e. aquilo que a new left gramsciana chamaria de cultura autoritária ou castradora).

Pois bem, tudo isso está a mudar; e no carnaval português “brasileiro” já pouco há a esconder ou a conter. Tal não é apenas uma perda de identidade, é igualmente um lento mudar de paradigma que aceita de bom grado o que é relaxado e rejeita tudo o que implique disciplina e civilização. Assim, não é surpreendente que não seja preciso nenhum acordo ortográfico (AO) ao nível da aculturação para que certos comportamentos culturais sejam absorvidos, substituindo os tradicionais e autóctones. Ao contrário do AO, não é preciso nenhum tratado entre países, basta a televisão, a promovida ideologia da identificação com a “humanidade” e um fascínio pelo “outro”; raramente o “outro” que tem disciplina, mas sim o “outro” que oferece um modelo mais hedonista e materialista; e assim será até que o hedonismo se esgote em si mesmo.

O AO e a aculturação deste Carnaval em Portugal são duas faces da mesma moeda. Ambos eliminam os marcadores distintivos que delimitam as nações, as civilizações, os indivíduos e as comunidades para abrir caminho à homogeneização. Esta última, claro está, continua no reino das utopias, pois a força natural da diferenciação, para a infelicidade das ideologias modernas, não se irá embora; está cristalizada no nosso ADN evolutivo.

Contudo, haverá quem diga que o AO e o carnaval brasileiro em terras lusas são fenómenos distintos, pois um é promovido diplomaticamente pelo governo e o outro é “natural”, fruto da convivência entre indivíduos. Tal consideração ignora o papel das elites nas sociedades, nomeadamente na formação das consciências colectivas. A inacção ou “neutralidade” da contemporaneidade individualista que é promovida pelos detentores dos poderes políticos e culturais é tão decisiva como o assinar de tratados para definir a ortografia de uma língua. Por outras palavras, todas as ideias ao nível das elites têm consequências directas na forma como a sociedade se vai organizar e consciencializar-se do bem e do mal, do bom e do mau, de si e do outro.

Consequentemente, estes 2 fenómenos são produtos da mesma mundividência ideológica contemporânea, um por acção directa e o outro por licença e promoção de ordens psicológicas que levam a essa aculturação.

Esta importância das elites era já conhecida desde os primórdios da civilização ocidental. Talvez poucos em Portugal o tivessem colocado de forma tão acutilante como Luís de Camões quando escreveu: “O fraco rei faz fraca a forte gente”. E assim é.

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