Ninfomaníaca: a lembrar o que a modernidade quer esquecer

Mark Twain escreveu que “sê tu mesmo” é o pior conselho que se pode dar a alguém. Tal advém de um notório pessimismo antropológico; isto é, advém da ideia de que as nossas Personas (personagens públicas) são, apesar de tudo, melhores do que o verdadeiro “eu” que se esconde atrás delas. Não é certo que Lars von Trier adira a esta ideia de Twain; mas toda a filmografia deste realizador salienta a força do “eu” por oposição à fraqueza da transformação educativa ou ambiental.

O filme “Ninfomaníaca” (2013) de Lars von Trier apresenta a história de Joe, uma ninfomaníaca assumida que narra o curso da sua vida pejada de eventos sexuais perversos. Joe conta a sua história a Seligman, um homem solitário e orientado para o conhecimento teórico que alega ter pouca ou nenhuma experiência sexual (ou até humana). As duas personagens são contrastantes: Joe é uma mulher britânica vivida, dura, calejada ao ponto do infinito, pessimista, politicamente incorrecta e assumidamente emocional; Seligman é um homem de ascendência judaica mas não-religioso, anti-sionista e liberal humanista, que demonstra durante todo o filme praticar a canónica tolerância liberal ao tratar todas as experiências de radicalismo sexual e psicológico de Joe com a maior das naturalidades; como se estas fossem escolhas tão boas ou tão más como quaisquer outras. Afinal de contas, foram escolhidas pela soberania do indivíduo. A título de exemplo, a dada altura, referindo-se à infelicidade de Joe, Seligman sugere em tom crítico que a sociedade condena mais uma mãe que deixa os filhos por causa de sexo do que condena um pai, numa latente alusão à necessidade de mais igualdade de género. Outro exemplo é a defesa de Seligman do politicamente correcto como expressão lógica da defesa democrática das “minorias”; ao que Joe responde violentamente acusando tal ideia de estar pejada de hipocrisia humana.

Todo o filme mostra a decadência absoluta em que Joe mergulha devido aos seus desejos insaciáveis por experiências sexuais, terminando fisicamente debilitada, com um filho que não pode ver e com uma vida na criminalidade. Ao mostrar o preço que Joe paga pelas suas escolhas e ao contrastar a realidade crua com os comentários humanistas e igualitários de Seligman, “Ninfomaníaca” pode ser (e foi) lido como uma crítica conservadora tradicional ao liberalismo da modernidade. Lars vai revelando uma lista de supostas perversões de Joe que aparecem em crescendo e que são apresentadas como produto de uma compulsão incontrolável da libido: de simples sexo no comboio com vários homens, a sexo aleatório e diário com um número incontável de parceiros, a sexo interracial, a masoquismo extremamente violento e a homossexualidade. Apesar de não praticar pedofilia, Joe chega a sugerir que entende os pedófilos, porque eles, tal como ela, carregam um fardo sexual que afecta a decisivamente a sua vida. Mais, acrescenta que os pedófilos que não agem no sentido de concretizar as suas fantasias sexuais merecem uma medalha.

Outro postulado da moral moderna que Lars desafia claramente é o postulado da decisão racional, assim como o da tábua rasa biológica (i.e. a ideia de que nascemos todos iguais e de que é a educação e ambiente que nos define). Apesar da sua atitude decidida, tudo se torna dramático porque se percebe claramente que Joe é mesmo assim, que tem aquela tendência biológica e que não sabe ser de outra forma, como um cão que não pode ser mais do que é, como um pitbull que é tão agressivo que o dono não tem outro remédio senão abatê-lo. O facto de que ela se mostra indiferente ou até orgulhosa do que é, não apaga esta realidade que o filme evidencia. Este tema da inevitabilidade da natureza humana está presente em boa parte das obras do realizador dinamarquês, estando talvez “Dogville” à cabeça; onde a personagem principal (Grace), à semelhança de Seligman, demonstra uma tolerância infinita perante comportamentos socialmente erráticos de inúmeros indivíduos e perante males cometidos contra ela e contra outros; mudando de opinião no fim do filme ao concordar com o seu pai que os “cães não podem ser perdoados apenas porque é da sua natureza serem maus”.

Curiosamente, no meio da sua decadência libertina, Joe tem posições que até se ajustam mais a uma moralidade tradicionalista: rejeita o politicamente correcto, elogia a abstinência de pedófilos, critica ferozmente a hipocrisia da modernidade igualitária e não acredita na re-educação milagrosa do ser humano. Perto do fim, há um breve momento em que ela repensa esta sua atitude e considera que talvez esteja na hora de mudar; mas tal pensamento não dura muito tempo, pois descobre imediatamente que Seligman, o seu novo amigo humanitário, usou essa mesma tolerância para, em conclusão, tentar ter sexo com ela. Ao perceber que esta tolerância significa afinal de contas indiferença para ganho estritamente pessoal, ela termina com a vida de Seligman; tal como Grace em “Dogville”, Joe perde de vez a fé na regeneração educativa.

A grande virtude de Lars von Trier é a sua capacidade para, como diria Nietzsche, olhar para o abismo evitando que este entre dentro de nós. Ou seja, combater monstros sem se transformar num. Este realizador ilustra o que a modernidade baseada na igualdade e liberdade individual prefere esquecer, atacando ferozmente os seus axiomas. Contudo, ele não é um niilista, pois apresenta soluções; apenas não aquelas que a modernidade aprecia. Quer em “Dogville” quer em “Ninfomaníaca”, a moralidade redentora é a da punição: quer Grace quer Joe removem da sociedade aqueles com comportamento anti-sociais. Não é uma novidade antropológica, remover institucionalmente os elementos nocivos à sociedade sempre foi parte da moralidade clássica evolutiva que permite o apurar da cooperação pró-social. Em termos normativos, existe assim uma arqueo-moralidade latente nas obras de Lars von Trier; e “Ninfomaníaca” não é excepção.

A Direcção do Progresso

Sempre que algo acontece que não se enquadra no modelo de progresso da modernidade, chovem comentários de que “não se anda para a frente” ou que é “um retrocesso civilizacional” ou, muito simplesmente, que se estão “a perder os direitos adquiridos”, entre muitos outros comentários que mais não dizem que estamos “a andar para trás”. Estes eventos são conhecidos: se um parlamento votar contra a adopção de crianças por homossexuais, se votar contra propostas de leis feministas ou se se recusar a abdicar das poucas instituições tradicionais que restam, começarão de imediato os coros de indignação progressista.

Isto é extremamente curioso porque dá a entender que existe na população que vocifera uma visão específica da filosofia da história e do progresso. Mais, parece que é a única vigente, sendo que os que a contrariam (nos parlamentos) o fazem mais a medo da mudança do que através de uma visão filosófica específica. Um pouco a confirmar a piada de que o conservador é aquela criança que primeiro não quer entrar na banheira mas depois já não quer sair de lá.

Esta actual visão dominante nas massas é a visão linear do progresso histórico, onde a humanidade caminha linearmente em direcção à absoluta liberdade individual que dará lugar ao racionalismo iluminado e onde os indivíduos serão donos absolutos de si mesmo e do seu pensamento. Serão assim livres das amarras comunitárias e tradicionais. Esta visão considera que a história caminha sempre para melhor e que quaisquer problemas que surjam são apenas obstáculos ao destino teleológico da liberdade e igualdade individual ou da Razão; obstáculos a serem ultrapassados, claro. Na visão linear do progresso enquadram-se autores como Hegel, Kant, Marx ou, mais recentemente, Fukuyama e o seu “fim de história liberal democrata”. Contudo, existem outras visões diferentes, como a visão cíclica da história (de que Oswald Spengler é um representante) que vê os eventos históricos civilizacionais como organismos que nascem, prosperam, definham e morrem.

Existe também a visão esférica da história (a qual me convence bastante mais), que vê os eventos da história como esferas que podem ir em qualquer direcção e que estão sujeitas a diversas forças que empurram em direcções antagónicas. Esta será uma visão onde não há necessariamente uma lógica teleológica mas sim uma luta de poder e vontades. Sem surpresa, Nietzsche foi um dos que criticou ferozmente a lógica da progressão linear da história. Desta forma, há vencedores e vencidos, há aqueles que ficam para escrever a história e os que se extinguem colectivamente por falta de engenho ou vontade. Vivemos numa altura em que, em termos políticos, é “proibido” questionar se a libertação acrítica dos indivíduos de um grupo pode levar ao fim histórico deste.

Mas como é que tantos indivíduos, principalmente na classe média, aderem a uma visão específica da história? Especialmente sabendo-se que esta não é a única que foi pensada. A resposta mais simples é que o liberalismo “iluminado” domina a moralidade das elites, que, por sua vez, através do domínio das instituições políticas e culturais, difunde essa visão moral como a única que está correcta. Por outra palavras, a doutrinação funciona e, apesar dos seus limites, sempre funcionou. A esmagadora maioria daqueles que fazem comentários a queixarem-se de que “estamos a andar para trás” estão a pensar dentro dos moldes da filosofia do progresso linear, mas é mais do que certo que nunca nenhum deles parou para ler sobre a lógica em si ou para a questionar; os seus comentários são naturalmente pavlovianos; ou seja, Kant vive nas suas mentes, depurado e simplificado pelos agentes político-culturais que leram de facto o autor alemão (assim como os demais autores do iluminismo) e que veiculam a sua moralidade todos os dias à sociedade.

Os detractores mais cépticos deste processo por vezes queixam-se de que estamos cada vez mais a entrar num totalitarismo humanista onde as elites impõem à força a “libertação e igualdade” do indivíduo. Queixam-se que tal é uma absoluta contradição. Contudo, não se deviam surpreender; já o próprio Kant considerava que a libertação do indivíduo necessitava de despotismo iluminado e que através da “educação” (i.e. doutrinação), do cosmopolitismo imposto e da paz eterna se poderia atingir esse fim. Tudo o que está a acontecer foi já pensado antes; confirmando a velha máxima de John M. Keynes que mesmo os homens que se pensam pragmáticos e livres de ideologias são escravos de um qualquer pensador. Esta escravidão é provavelmente a tragédia da visão linear da história e do progresso.