A Direcção do Progresso

Sempre que algo acontece que não se enquadra no modelo de progresso da modernidade, chovem comentários de que “não se anda para a frente” ou que é “um retrocesso civilizacional” ou, muito simplesmente, que se estão “a perder os direitos adquiridos”, entre muitos outros comentários que mais não dizem que estamos “a andar para trás”. Estes eventos são conhecidos: se um parlamento votar contra a adopção de crianças por homossexuais, se votar contra propostas de leis feministas ou se se recusar a abdicar das poucas instituições tradicionais que restam, começarão de imediato os coros de indignação progressista.

Isto é extremamente curioso porque dá a entender que existe na população que vocifera uma visão específica da filosofia da história e do progresso. Mais, parece que é a única vigente, sendo que os que a contrariam (nos parlamentos) o fazem mais a medo da mudança do que através de uma visão filosófica específica. Um pouco a confirmar a piada de que o conservador é aquela criança que primeiro não quer entrar na banheira mas depois já não quer sair de lá.

Esta actual visão dominante nas massas é a visão linear do progresso histórico, onde a humanidade caminha linearmente em direcção à absoluta liberdade individual que dará lugar ao racionalismo iluminado e onde os indivíduos serão donos absolutos de si mesmo e do seu pensamento. Serão assim livres das amarras comunitárias e tradicionais. Esta visão considera que a história caminha sempre para melhor e que quaisquer problemas que surjam são apenas obstáculos ao destino teleológico da liberdade e igualdade individual ou da Razão; obstáculos a serem ultrapassados, claro. Na visão linear do progresso enquadram-se autores como Hegel, Kant, Marx ou, mais recentemente, Fukuyama e o seu “fim de história liberal democrata”. Contudo, existem outras visões diferentes, como a visão cíclica da história (de que Oswald Spengler é um representante) que vê os eventos históricos civilizacionais como organismos que nascem, prosperam, definham e morrem.

Existe também a visão esférica da história (a qual me convence bastante mais), que vê os eventos da história como esferas que podem ir em qualquer direcção e que estão sujeitas a diversas forças que empurram em direcções antagónicas. Esta será uma visão onde não há necessariamente uma lógica teleológica mas sim uma luta de poder e vontades. Sem surpresa, Nietzsche foi um dos que criticou ferozmente a lógica da progressão linear da história. Desta forma, há vencedores e vencidos, há aqueles que ficam para escrever a história e os que se extinguem colectivamente por falta de engenho ou vontade. Vivemos numa altura em que, em termos políticos, é “proibido” questionar se a libertação acrítica dos indivíduos de um grupo pode levar ao fim histórico deste.

Mas como é que tantos indivíduos, principalmente na classe média, aderem a uma visão específica da história? Especialmente sabendo-se que esta não é a única que foi pensada. A resposta mais simples é que o liberalismo “iluminado” domina a moralidade das elites, que, por sua vez, através do domínio das instituições políticas e culturais, difunde essa visão moral como a única que está correcta. Por outra palavras, a doutrinação funciona e, apesar dos seus limites, sempre funcionou. A esmagadora maioria daqueles que fazem comentários a queixarem-se de que “estamos a andar para trás” estão a pensar dentro dos moldes da filosofia do progresso linear, mas é mais do que certo que nunca nenhum deles parou para ler sobre a lógica em si ou para a questionar; os seus comentários são naturalmente pavlovianos; ou seja, Kant vive nas suas mentes, depurado e simplificado pelos agentes político-culturais que leram de facto o autor alemão (assim como os demais autores do iluminismo) e que veiculam a sua moralidade todos os dias à sociedade.

Os detractores mais cépticos deste processo por vezes queixam-se de que estamos cada vez mais a entrar num totalitarismo humanista onde as elites impõem à força a “libertação e igualdade” do indivíduo. Queixam-se que tal é uma absoluta contradição. Contudo, não se deviam surpreender; já o próprio Kant considerava que a libertação do indivíduo necessitava de despotismo iluminado e que através da “educação” (i.e. doutrinação), do cosmopolitismo imposto e da paz eterna se poderia atingir esse fim. Tudo o que está a acontecer foi já pensado antes; confirmando a velha máxima de John M. Keynes que mesmo os homens que se pensam pragmáticos e livres de ideologias são escravos de um qualquer pensador. Esta escravidão é provavelmente a tragédia da visão linear da história e do progresso.

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