Gordon Tullock (1922- 2014)

Morreu Gordon Tullock, o académico americano conhecido pela sua contribuição distintiva para a Teoria da Escolha Pública (i.e. a aplicação de teoria económica ao estudo de instituições políticas). Foi especialmente reconhecido por identificar fenómenos clássicos como o “rent seeking” (a captura do poder político por grupos de interesse) e por ter escrito com James Buchanan o famoso livro “The Calculus of Consent”, onde estudaram juntos os custos que a regra maioritária em democracia apresenta em relação a processos de decisão colectiva por unanimidade (e vice-versa). Tullock estudou igualmente sistemas autocráticos através da lente da teoria da escolha racional, algo que poucos tinham feito até então. Em termos comparativos, apesar do olhar crítico dos vários sistemas de poder, ele favorecia genericamente o processo democrático com fortes limites à acção governativa; contudo, considerava que o ponto histórico de equilíbrio institucional é autocrático. A sua preferência estava nos mercados, por oposição a formas extensivas de poder. Tal derivava de uma visão dos seres humanos mais estreita do que inclusivamente se pode encontrar na teoria da escolha racional (que possui algumas vertentes mais abertas a comportamentos plurais). Tullock não dava grande espaço para a crença no altruísmo humano, preferindo explicar os fenómenos humanos através de uma visão a que podemos apelidar de egoísmo racional; do qual ele não acreditava que os seres humanos se afastassem muito, recusando inclusivamente outras teorias de carácter moral que apareceram mais tarde no campo da Escolha Pública como o “expressive voting” (voto expressivo por razões morais devido ao baixo custo do acto de votar). Esta visão do comportamento humano trouxe-lhe muitas críticas daqueles que consideram que ele simplificava em demasia a natureza do comportamento (embora estas críticas se estendam em geral à Teoria da Escolha Pública).

Ao contrário de James Buchanan, Tullock não viu o seu trabalho reconhecido com o prémio Nobel. Muitos consideraram que tal foi injusto; já outros preferiam a sofisticação da filosofia política-económica de James Buchanan. Havia de facto uma diferença de estilo e de linguagem entre os dois académicos, sendo Tullock mais directo e coloquial do que Buchanan (talvez revelando o seu percurso em Direito). Havia no entanto em Tullock uma vontade de quebrar barreiras que fez com que influenciasse várias gerações de pensadores na área. Poucos são aqueles que estudaram teoria política e económica e não tiveram de explorar ideias que ele iniciou ou desenvolveu. Eu fui certamente um deles e é difícil ignorar a partida de alguém cujas ideias discutimos com considerável paixão no passado. Que descanse em paz.

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