O 25 de Abril e a Liberdade

Segundo a conhecida tese de Samuel Huntington, a terceira vaga de democratizações mundiais começou com a revolução dos cravos no 25 de Abril de 1974 em Portugal. Em retrospectiva, a primeira vaga de democratização ocorreu no século XIX com reformas em direcção ao sufrágio universal em inúmeros países do ocidente, com os EUA à cabeça. A segunda vaga deu-se a seguir à segunda guerra mundial sob a hegemonia vitoriosa americana e sob a derrota militar das forças anti-democráticas europeias do eixo. Portugal iniciou assim a terceira vaga de democratização, o que levou a que, hoje em dia, boa parte dos países da ONU se considerem democracias, pelo menos nominalmente.

Apesar de esta teoria colocar Portugal numa posição de vanguarda, a verdade é que, assumindo que existem eventos inevitáveis na história, a democratização de todo o ocidente era inevitável. Tal deve-se à força desse valor filosófico que desde o fim da segunda guerra mundial está sustentado pelo poder armado americano: a liberdade.

O culto da liberdade estava já há alguns séculos em ascensão e solidificou-se a partir da revolução francesa até que as chamadas “revoluções conservadoras” no século XX se opuseram a ele. Tendo sido estas ideias derrotadas pela força das armas, a democracia vitoriosa e militarmente imponente continuou a expandir-se e a exercer pressão moral até que os últimos resistentes europeus mais relevantes (Portugal e Espanha) caíram. Tal não é surpresa, apenas confirma que a civilização ocidental é uma família onde os eventos importantes, principalmente os vitoriosos, bons ou maus, tendem invariavelmente a alastrar, percorrendo as suas diversas regiões culturais. A ideia de que alguma região ou nação europeia poderá fazer um percurso alheado do resto da família europeia é, em larga medida, uma impossibilidade. O que, aliás, nos é lembrado na emblemática frase do filme “Europa” de Lars von Trier:

“You want to wake up to free yourself of the image of Europa. But It Is Not Possible”.

(Queres acordar para te libertares da imagem da Europa. Mas não é possível)

 Durante os períodos coloniais, várias nações ocidentais criaram a ideia de que eram a sua própria civilização e que não eram já parte do todo Europeu; que podiam ir “sozinhos”, virando as costas aos seus semelhantes; que tinham mais em comum com os seus impérios do que com os povos Europeus. Sem surpresa, não se conseguiram “libertar da imagem da Europa”. Assim, a “Europa”, com a força ideológica americana por trás, trouxe Portugal de volta com o 25 de Abril, sob a capa da “liberdade”.

Na verdade, foi sob a capa da liberdade e da igualdade, pois ambas são faces da mesma moeda. Os partidários demoliberais tendem a enfatizar mais a primeira e os socialistas/comunistas a segunda, mas na realidade não é possível conceptualizar uma sem a outra; isto apesar das incompatibilidades teóricas e práticas entre as duas (o que diz muito dos problemas insolúveis do paradigma iluminista-liberal apontados por Alasdair Macintyre ou Nietzsche).

Por oposição a esta vaga “de liberdade” (armada), os conservadores tradicionais europeus tentaram mostrar que a liberdade só pode revelar-se dentro da tradição etno-cultural e civilizacional; que não existe liberdade sem sentimento de pertença a uma identidade grupal e que a única liberdade não-degenerativa que interessa perseguir é a da transcendência meritocrática do “eu” para algo maior: o colectivo transcendente ou comunitário. Ainda assim, a ideia de “liberdade” do demo-liberalismo prevaleceu, pois não só é mais intuitiva (i.e. “cada um faz o quer”), como também é fácil de aceitar (i.e. “eu faço o que quero”). Contudo, esta liberdade dura apenas enquanto as normas tradicionais estão interiorizadas nos indivíduos; conforme o tempo de liberalização passa, estas deixam de o estar, gerando o progressivo caos ou degeneração para o mínimo denominador comum hedonista. Por outras palavras, muitas gerações de tradicionalismo permitem umas quantas de liberalismo até que as normas de coesão comunitárias se esvanecem e um novo ciclo tradicional terá de começar.

O 25 de Abril trouxe Portugal de novo para Europa (e posteriormente para a União Europeia) sob a égide da liberdade. Contudo, esta liberdade é a mesma que se anula a si mesma. No campo da liberdade de expressão tão relevado pelos “Abrilistas”, gerou-se o fenómeno do politicamente correcto (com origem na Escola de Frankfurt), que é um fenómeno legitimado e promovido pelo regime político e cultural/ideológico com reprodução nos órgãos de comunicação social. Como consequência, poucos são os que realmente dizem aquilo que é politicamente relevante e normalmente esses poucos não chegam perto dos centros de poder. Em termos de participação política, criam-se dificuldades burocráticas e pecuniárias a novas facções partidárias não-alinhadas; mas o controlo dos temas passíveis de serem discutidos (i.e. “agenda-setting”) é fundamental para manter a suposta “liberdade de expressão” dentro dos parâmetros pretendidos.

O resultado final é aquilo que se assemelha ao fim da política (uma espécie de “fim da história” televisionada), onde os debates se resumem a questões económicas e ao vociferar furioso de banalidades que em pouco ou nada invertem o rumo descendente dos portugueses como povo histórico. Este fim da política chegou ao ponto de não ter grandes (ou sequer pequenos) desígnios colectivos, de não ter identidade, de ser uma máquina em piloto automático para maximizar o hedonismo do indivíduo desenraizado.

O 25 de Abril fez-se essencialmente “a favor” dos portugueses da metrópole, mas rapidamente se percebeu que o objectivo da liberdade era desfazer o conceito de Portugal. Se no Estado Novo de carácter imperial se criava a ilusão de que havia só portugueses de Lisboa a Timor, agora já nem portugueses existem, só há a humanidade. Ninguém arrisca sequer a definir o que é um português para efeitos políticos a não ser em roupagem legal. Burocratizou-se o indivíduo para terminar a sua pertença comunitária; pertença essa cujos laços são vistos pelos contemporâneos como pré-modernos ou autoritários. Sim, voltou-se à Europa em 1974, mas a uma Europa que, apesar de apelar à integração europeia, rejeita a sua identidade específica e o seu legado civilizacional clássico; abraçando a ideia de que a paz eterna requer o fim de destinos colectivos que transcendam o “eu”.

Se antes do 25 de Abril existia quem rejeitasse a ideia de Europa em troca de impérios coloniais, agora temos a rejeição da ideia de Europa em troca de “liberdade”. Porém, apesar de mais uma vez nos querermos politicamente libertar da ideia de Europa, “não é possível”.

Ninfomaníaca: a lembrar o que a modernidade quer esquecer

Mark Twain escreveu que “sê tu mesmo” é o pior conselho que se pode dar a alguém. Tal advém de um notório pessimismo antropológico; isto é, advém da ideia de que as nossas Personas (personagens públicas) são, apesar de tudo, melhores do que o verdadeiro “eu” que se esconde atrás delas. Não é certo que Lars von Trier adira a esta ideia de Twain; mas toda a filmografia deste realizador salienta a força do “eu” por oposição à fraqueza da transformação educativa ou ambiental.

O filme “Ninfomaníaca” (2013) de Lars von Trier apresenta a história de Joe, uma ninfomaníaca assumida que narra o curso da sua vida pejada de eventos sexuais perversos. Joe conta a sua história a Seligman, um homem solitário e orientado para o conhecimento teórico que alega ter pouca ou nenhuma experiência sexual (ou até humana). As duas personagens são contrastantes: Joe é uma mulher britânica vivida, dura, calejada ao ponto do infinito, pessimista, politicamente incorrecta e assumidamente emocional; Seligman é um homem de ascendência judaica mas não-religioso, anti-sionista e liberal humanista, que demonstra durante todo o filme praticar a canónica tolerância liberal ao tratar todas as experiências de radicalismo sexual e psicológico de Joe com a maior das naturalidades; como se estas fossem escolhas tão boas ou tão más como quaisquer outras. Afinal de contas, foram escolhidas pela soberania do indivíduo. A título de exemplo, a dada altura, referindo-se à infelicidade de Joe, Seligman sugere em tom crítico que a sociedade condena mais uma mãe que deixa os filhos por causa de sexo do que condena um pai, numa latente alusão à necessidade de mais igualdade de género. Outro exemplo é a defesa de Seligman do politicamente correcto como expressão lógica da defesa democrática das “minorias”; ao que Joe responde violentamente acusando tal ideia de estar pejada de hipocrisia humana.

Todo o filme mostra a decadência absoluta em que Joe mergulha devido aos seus desejos insaciáveis por experiências sexuais, terminando fisicamente debilitada, com um filho que não pode ver e com uma vida na criminalidade. Ao mostrar o preço que Joe paga pelas suas escolhas e ao contrastar a realidade crua com os comentários humanistas e igualitários de Seligman, “Ninfomaníaca” pode ser (e foi) lido como uma crítica conservadora tradicional ao liberalismo da modernidade. Lars vai revelando uma lista de supostas perversões de Joe que aparecem em crescendo e que são apresentadas como produto de uma compulsão incontrolável da libido: de simples sexo no comboio com vários homens, a sexo aleatório e diário com um número incontável de parceiros, a sexo interracial, a masoquismo extremamente violento e a homossexualidade. Apesar de não praticar pedofilia, Joe chega a sugerir que entende os pedófilos, porque eles, tal como ela, carregam um fardo sexual que afecta a decisivamente a sua vida. Mais, acrescenta que os pedófilos que não agem no sentido de concretizar as suas fantasias sexuais merecem uma medalha.

Outro postulado da moral moderna que Lars desafia claramente é o postulado da decisão racional, assim como o da tábua rasa biológica (i.e. a ideia de que nascemos todos iguais e de que é a educação e ambiente que nos define). Apesar da sua atitude decidida, tudo se torna dramático porque se percebe claramente que Joe é mesmo assim, que tem aquela tendência biológica e que não sabe ser de outra forma, como um cão que não pode ser mais do que é, como um pitbull que é tão agressivo que o dono não tem outro remédio senão abatê-lo. O facto de que ela se mostra indiferente ou até orgulhosa do que é, não apaga esta realidade que o filme evidencia. Este tema da inevitabilidade da natureza humana está presente em boa parte das obras do realizador dinamarquês, estando talvez “Dogville” à cabeça; onde a personagem principal (Grace), à semelhança de Seligman, demonstra uma tolerância infinita perante comportamentos socialmente erráticos de inúmeros indivíduos e perante males cometidos contra ela e contra outros; mudando de opinião no fim do filme ao concordar com o seu pai que os “cães não podem ser perdoados apenas porque é da sua natureza serem maus”.

Curiosamente, no meio da sua decadência libertina, Joe tem posições que até se ajustam mais a uma moralidade tradicionalista: rejeita o politicamente correcto, elogia a abstinência de pedófilos, critica ferozmente a hipocrisia da modernidade igualitária e não acredita na re-educação milagrosa do ser humano. Perto do fim, há um breve momento em que ela repensa esta sua atitude e considera que talvez esteja na hora de mudar; mas tal pensamento não dura muito tempo, pois descobre imediatamente que Seligman, o seu novo amigo humanitário, usou essa mesma tolerância para, em conclusão, tentar ter sexo com ela. Ao perceber que esta tolerância significa afinal de contas indiferença para ganho estritamente pessoal, ela termina com a vida de Seligman; tal como Grace em “Dogville”, Joe perde de vez a fé na regeneração educativa.

A grande virtude de Lars von Trier é a sua capacidade para, como diria Nietzsche, olhar para o abismo evitando que este entre dentro de nós. Ou seja, combater monstros sem se transformar num. Este realizador ilustra o que a modernidade baseada na igualdade e liberdade individual prefere esquecer, atacando ferozmente os seus axiomas. Contudo, ele não é um niilista, pois apresenta soluções; apenas não aquelas que a modernidade aprecia. Quer em “Dogville” quer em “Ninfomaníaca”, a moralidade redentora é a da punição: quer Grace quer Joe removem da sociedade aqueles com comportamento anti-sociais. Não é uma novidade antropológica, remover institucionalmente os elementos nocivos à sociedade sempre foi parte da moralidade clássica evolutiva que permite o apurar da cooperação pró-social. Em termos normativos, existe assim uma arqueo-moralidade latente nas obras de Lars von Trier; e “Ninfomaníaca” não é excepção.