Família ou tribo?

Esta questão precisa de ser abordada indo à raiz antropológica e sociobiológica da organização social. O que vem primeiro, a família ou a tribo (família alargada)? A resposta que os conservadores têm dado nos últimos 50 anos tem sido “a família” (com medo que os acusem de r-istas ou f-istas). Mas a organização familiar é uma função da organização do grupo maior; isto é, para o grupo funcionar harmoniosamente como um todo é necessário uma distribuição de funções (normas) familiares para resolver o problema de acção colectiva perante grandes números. É por isso que temos no ocidente famílias monogâmicas quando seria muito vantajoso para muitos homens terem várias mulheres (poligamia), mas tal traria desequilíbrios ao bio-grupo (tensões, desunião, etc…). Desta forma, a disciplina familiar desejada é resultado de uma força maior de selecção de grupo que “obriga” a que este funcione em harmonia. O erro dos conservadores nos últimos 40 anos foi nunca terem definido com exactidão o grupo que visam defender. Ao aceitarem uma espécie de nacionalismo liberal/civil, a mensagem que passam é que qualquer um pode ser parte do grupo (daí ser liberal), desmobilizando assim a razão para a disciplina familiar, que é o sacrifício para um todo concreto e também para um todo como extensão da família. Em suma, não vale muito a pena definir as práticas da família sem definir o grupo que essas práticas servem. Assim, é tão importante definir e delimitar essa mesma comunidade como delinear essas normas familiares. Uma sem a outra não funciona e é por isso que os conservadores têm perdido a luta dos valores familiares em toda a extensão. E vão continuar a perder até definirem correctamente e convenientemente o grupo a que eles se aplicam.

O 25 de Abril e a Liberdade

Segundo a conhecida tese de Samuel Huntington, a terceira vaga de democratizações mundiais começou com a revolução dos cravos no 25 de Abril de 1974 em Portugal. Em retrospectiva, a primeira vaga de democratização ocorreu no século XIX com reformas em direcção ao sufrágio universal em inúmeros países do ocidente, com os EUA à cabeça. A segunda vaga deu-se a seguir à segunda guerra mundial sob a hegemonia vitoriosa americana e sob a derrota militar das forças anti-democráticas europeias do eixo. Portugal iniciou assim a terceira vaga de democratização, o que levou a que, hoje em dia, boa parte dos países da ONU se considerem democracias, pelo menos nominalmente.

Apesar de esta teoria colocar Portugal numa posição de vanguarda, a verdade é que, assumindo que existem eventos inevitáveis na história, a democratização de todo o ocidente era inevitável. Tal deve-se à força desse valor filosófico que desde o fim da segunda guerra mundial está sustentado pelo poder armado americano: a liberdade.

O culto da liberdade estava já há alguns séculos em ascensão e solidificou-se a partir da revolução francesa até que as chamadas “revoluções conservadoras” no século XX se opuseram a ele. Tendo sido estas ideias derrotadas pela força das armas, a democracia vitoriosa e militarmente imponente continuou a expandir-se e a exercer pressão moral até que os últimos resistentes europeus mais relevantes (Portugal e Espanha) caíram. Tal não é surpresa, apenas confirma que a civilização ocidental é uma família onde os eventos importantes, principalmente os vitoriosos, bons ou maus, tendem invariavelmente a alastrar, percorrendo as suas diversas regiões culturais. A ideia de que alguma região ou nação europeia poderá fazer um percurso alheado do resto da família europeia é, em larga medida, uma impossibilidade. O que, aliás, nos é lembrado na emblemática frase do filme “Europa” de Lars von Trier:

“You want to wake up to free yourself of the image of Europa. But It Is Not Possible”.

(Queres acordar para te libertares da imagem da Europa. Mas não é possível)

 Durante os períodos coloniais, várias nações ocidentais criaram a ideia de que eram a sua própria civilização e que não eram já parte do todo Europeu; que podiam ir “sozinhos”, virando as costas aos seus semelhantes; que tinham mais em comum com os seus impérios do que com os povos Europeus. Sem surpresa, não se conseguiram “libertar da imagem da Europa”. Assim, a “Europa”, com a força ideológica americana por trás, trouxe Portugal de volta com o 25 de Abril, sob a capa da “liberdade”.

Na verdade, foi sob a capa da liberdade e da igualdade, pois ambas são faces da mesma moeda. Os partidários demoliberais tendem a enfatizar mais a primeira e os socialistas/comunistas a segunda, mas na realidade não é possível conceptualizar uma sem a outra; isto apesar das incompatibilidades teóricas e práticas entre as duas (o que diz muito dos problemas insolúveis do paradigma iluminista-liberal apontados por Alasdair Macintyre ou Nietzsche).

Por oposição a esta vaga “de liberdade” (armada), os conservadores tradicionais europeus tentaram mostrar que a liberdade só pode revelar-se dentro da tradição etno-cultural e civilizacional; que não existe liberdade sem sentimento de pertença a uma identidade grupal e que a única liberdade não-degenerativa que interessa perseguir é a da transcendência meritocrática do “eu” para algo maior: o colectivo transcendente ou comunitário. Ainda assim, a ideia de “liberdade” do demo-liberalismo prevaleceu, pois não só é mais intuitiva (i.e. “cada um faz o quer”), como também é fácil de aceitar (i.e. “eu faço o que quero”). Contudo, esta liberdade dura apenas enquanto as normas tradicionais estão interiorizadas nos indivíduos; conforme o tempo de liberalização passa, estas deixam de o estar, gerando o progressivo caos ou degeneração para o mínimo denominador comum hedonista. Por outras palavras, muitas gerações de tradicionalismo permitem umas quantas de liberalismo até que as normas de coesão comunitárias se esvanecem e um novo ciclo tradicional terá de começar.

O 25 de Abril trouxe Portugal de novo para Europa (e posteriormente para a União Europeia) sob a égide da liberdade. Contudo, esta liberdade é a mesma que se anula a si mesma. No campo da liberdade de expressão tão relevado pelos “Abrilistas”, gerou-se o fenómeno do politicamente correcto (com origem na Escola de Frankfurt), que é um fenómeno legitimado e promovido pelo regime político e cultural/ideológico com reprodução nos órgãos de comunicação social. Como consequência, poucos são os que realmente dizem aquilo que é politicamente relevante e normalmente esses poucos não chegam perto dos centros de poder. Em termos de participação política, criam-se dificuldades burocráticas e pecuniárias a novas facções partidárias não-alinhadas; mas o controlo dos temas passíveis de serem discutidos (i.e. “agenda-setting”) é fundamental para manter a suposta “liberdade de expressão” dentro dos parâmetros pretendidos.

O resultado final é aquilo que se assemelha ao fim da política (uma espécie de “fim da história” televisionada), onde os debates se resumem a questões económicas e ao vociferar furioso de banalidades que em pouco ou nada invertem o rumo descendente dos portugueses como povo histórico. Este fim da política chegou ao ponto de não ter grandes (ou sequer pequenos) desígnios colectivos, de não ter identidade, de ser uma máquina em piloto automático para maximizar o hedonismo do indivíduo desenraizado.

O 25 de Abril fez-se essencialmente “a favor” dos portugueses da metrópole, mas rapidamente se percebeu que o objectivo da liberdade era desfazer o conceito de Portugal. Se no Estado Novo de carácter imperial se criava a ilusão de que havia só portugueses de Lisboa a Timor, agora já nem portugueses existem, só há a humanidade. Ninguém arrisca sequer a definir o que é um português para efeitos políticos a não ser em roupagem legal. Burocratizou-se o indivíduo para terminar a sua pertença comunitária; pertença essa cujos laços são vistos pelos contemporâneos como pré-modernos ou autoritários. Sim, voltou-se à Europa em 1974, mas a uma Europa que, apesar de apelar à integração europeia, rejeita a sua identidade específica e o seu legado civilizacional clássico; abraçando a ideia de que a paz eterna requer o fim de destinos colectivos que transcendam o “eu”.

Se antes do 25 de Abril existia quem rejeitasse a ideia de Europa em troca de impérios coloniais, agora temos a rejeição da ideia de Europa em troca de “liberdade”. Porém, apesar de mais uma vez nos querermos politicamente libertar da ideia de Europa, “não é possível”.

Carnavais

Passou mais um Carnaval. Ligámos a televisão e deparámo-nos com um Portugal “brasileiro” em inúmeras das suas localidades; esse espectáculo deslocado onde portuguesas semi-nuas tentam emular uma cultura de carácter afro-brasileiro com o clima errado e com a génese errada. O resultado agradará a alguns com certeza, afinal de contas nunca foram poucos os que quiseram ter licença para ver tanto com custos tão baixos. Isto é especialmente verdade num país com tradição católica onde a formalidade e o pudor imperaram em termos comparativos (i.e. aquilo que a new left gramsciana chamaria de cultura autoritária ou castradora).

Pois bem, tudo isso está a mudar; e no carnaval português “brasileiro” já pouco há a esconder ou a conter. Tal não é apenas uma perda de identidade, é igualmente um lento mudar de paradigma que aceita de bom grado o que é relaxado e rejeita tudo o que implique disciplina e civilização. Assim, não é surpreendente que não seja preciso nenhum acordo ortográfico (AO) ao nível da aculturação para que certos comportamentos culturais sejam absorvidos, substituindo os tradicionais e autóctones. Ao contrário do AO, não é preciso nenhum tratado entre países, basta a televisão, a promovida ideologia da identificação com a “humanidade” e um fascínio pelo “outro”; raramente o “outro” que tem disciplina, mas sim o “outro” que oferece um modelo mais hedonista e materialista; e assim será até que o hedonismo se esgote em si mesmo.

O AO e a aculturação deste Carnaval em Portugal são duas faces da mesma moeda. Ambos eliminam os marcadores distintivos que delimitam as nações, as civilizações, os indivíduos e as comunidades para abrir caminho à homogeneização. Esta última, claro está, continua no reino das utopias, pois a força natural da diferenciação, para a infelicidade das ideologias modernas, não se irá embora; está cristalizada no nosso ADN evolutivo.

Contudo, haverá quem diga que o AO e o carnaval brasileiro em terras lusas são fenómenos distintos, pois um é promovido diplomaticamente pelo governo e o outro é “natural”, fruto da convivência entre indivíduos. Tal consideração ignora o papel das elites nas sociedades, nomeadamente na formação das consciências colectivas. A inacção ou “neutralidade” da contemporaneidade individualista que é promovida pelos detentores dos poderes políticos e culturais é tão decisiva como o assinar de tratados para definir a ortografia de uma língua. Por outras palavras, todas as ideias ao nível das elites têm consequências directas na forma como a sociedade se vai organizar e consciencializar-se do bem e do mal, do bom e do mau, de si e do outro.

Consequentemente, estes 2 fenómenos são produtos da mesma mundividência ideológica contemporânea, um por acção directa e o outro por licença e promoção de ordens psicológicas que levam a essa aculturação.

Esta importância das elites era já conhecida desde os primórdios da civilização ocidental. Talvez poucos em Portugal o tivessem colocado de forma tão acutilante como Luís de Camões quando escreveu: “O fraco rei faz fraca a forte gente”. E assim é.