Hierarquia e Praxe

A problemática da praxe académica em Portugal parece não ter fim. As discussões tornam-se inflamadas e, como em quase tudo na vida, as emoções tomam o controlo da situação. Os argumentos são já conhecidos, mas pode-se dizer genericamente que os que são contra a praxe consideram que esta viola o sentido de dignidade dos praxados (por vezes até a sua integridade física) e aqueles que estão a favor salientam o poder da tradição e a utilidade da praxe para incutir valores positivos de abnegação, sacrifício e respeito pela hierarquia social.

Devo dizer que por norma estou do lado das tradições. De um ponto de vista institucional, as tradições tendem a representar estruturas sociais hierárquicas onde é definido quem tem autoridade e a direcção que essa autoridade deve tomar. Se o Homem é um animal político, como Aristóteles postulou, e, sendo os homens desiguais nas suas composições, a hierarquia é uma virtude social, especialmente quando informada pela tradição. Porém, ao contrário de alguns tradicionalistas, não considero que a tradição deva ser absoluta. Parece-me evidente que algumas tradições degeneram; deixam de servir o propósito que serviam quando foram geradas e, em última instância, deixam de servir os interesses da comunidade, operando contra a sua perpetuação. A praxe académica (nos moldes actuais) parece-me ser um desses casos.

 Para explicar a minha posição é preciso aferir a importância, assim como a simbologia, da hierarquia social. Recorrendo às noções clássicas de hierarquia na Grécia antiga, a sua função é a de criar ordem colocando os melhores homens, aqueles com elevado carácter e capacidades, em lugares de responsabilidade para benefício da polis, ou seja, da comunidade. A hierarquia ganha significado quando aqueles que estão em lugares de autoridade servem um propósito comunitário positivo.

A submissão perante os detentores da autoridade é justificada através do exemplo positivo por parte destes últimos. Estes terão sempre de ser aristocratas de espírito; homens virtuosos e excepcionais que não se confundem com as fraquezas gerais. São eles que dão e são o exemplo social. São também eles que impõem a ordem, que punem os transgressores da boa conduta e que incutem uma mentalidade de sacrifício e lealdade à comunidade política e social.

Tudo isto deveria estar presente na simbologia e na praxis da praxe académica. Na realidade, não está. A autoridade hierárquica serve para incutir e velar pelos bons comportamentos sociais, mas não para humilhar os subordinados à priori como forma de atingir esse fim. A título de exemplo, a selecção marcial dos melhores homens não deve incutir uma simples capacidade para ser humilhado, mas sim capacidade de sacrifício em prol da comunidade pela qual se luta, o que são 2 conceitos consideravelmente diferentes. Ademais, incutir confiança pessoal no “eu” e no “nós” é vital para uma saudável tradição. Isto não se adquire a colocar jovens a pastarem de quatro como animais ou a esfregarem-se em estrume para o gáudio geral.

Outra função da autoridade é a de exigir excelência de comportamento social, a subida acima do animal. Se existe virtude em ter práticas que incutam sentido de abnegação em prol da hierarquia comunitária, não existe qualquer virtude em ligar esse processo a actos de degeneração e humilhação gratuita para satisfazer as emoções mais primárias e animalescas dos “superiores”. É precisamente por causa de demonstrações de poder hierárquico usadas para satisfação emotiva primária que vivemos numa era onde liberais (anti-Estado) e socialistas (anti-capital) digladiam-se para serem os melhores “anti-autoritários” do burgo. Mas a hierarquia não foi sempre assim, nem é a sua génese, tal como a história da civilização ocidental pré revolução francesa atesta.

Depois, atesto que os praxantes não são em média os detentores da virtude meritocrática. Não é assim de estranhar que existam queixas no sentido em que os melhores universitários, as melhores mentes, passam por humilhações às mãos de estudantes medíocres (mas cheios de energia emocional) que se aproveitam da massificação do ensino superior. Mais uma vez, onde não há excelência não pode haver autoridade legítima.

Em termos sociológicos, as elites são responsáveis por boa parte do destino para onde as comunidades se dirigem. Para o bem ou para o mal, as grandes sociedades tiveram, no passado ou no presente, grandes elites que souberam controlar as tradições. Percebendo onde é que elas fazem sentido, mas também percebendo pontualmente quando elas são nocivas à sociedade. A praxe não é nociva porque pode violar a integridade física dos alunos, certamente que essa não é a regra, caso contrário já teria sido proibida como o tabaco ou outras práticas nocivas. Ela é nociva a um nível muito mais importante que é o da simbologia social. Numa sociedade onde a autoridade está cada vez mais degradada devido à ausência de selecção virtuosa de elites políticas, a praxe é mais um elemento que, ao nível da simbologia, dá razão a todos os que pregam que a autoridade não pode ser mais do que risota, malícia e humilhação. Não é verdade; e como tal, a praxe é nociva essencialmente ao nível da psicologia social. Mais um elemento de fractura numa sociedade onde a coesão social se degrada a uma velocidade voraz.

Sobre os 10 filósofos que mais influenciam o discurso público

Quem quiser perceber o porquê de o igualitarismo moral dominar de forma hegemónica a modernidade pode olhar para esta lista dos 10 filósofos que mais influenciam o discurso público. Temos presentes todas as facções do igualitarismo que grassa o ocidente: o universalismo redentor de Peter Singer, o marxismo assumido de Dworkin, o marxismo não assumido de Habermas, o feminismo de Nussbaum, a luta em defesa do seu grupo étnico de Appiah e West (que são mais activistas políticos identitários do que filósofos), o “desenvolvimentismo” mundial igualitário de Sen (autor que demonstra brilhantismo no campo da filosofia da economia), o obscuro Humberto Eco, o comunitarismo de Michael Sandel por quem eu nutro simpatia apesar do seu igualitarismo que vejo como algo incoerente e, por fim, o Dennett, cujas perspectivas evolutivas são interessantes mas que adquire fama mais por causa do seu estatuto de “novo ateísta”.

Esta lista não podia resumir melhor o ocidente actual: irreligioso, mais preocupado com o outro do que consigo mesmo, a confundir ideias particulares com universais, a destruir o valor dos papeis tradicionais, sem identidade, sem memória histórica e, com esta literatura a predominar, sem futuro.

Top 10 Public Philosophers

O Conservadorismo é uma ideologia?

Segundo o pensador conservador americano Russell Kirk, o conservadorismo não é uma ideologia. Para Kirk, tal deve-se ao facto de não existir um livro com a doutrina do conservadorismo, nem existir O autor do conservadorismo; existindo assim vários conservadorismos. Kirk vê-se como representante de um corpo de sentimentos e não de uma doutrina. O conservadorismo é assim encarado como uma (pré-)disposição e não uma lista de regras escritas em pedra. Esta é uma visão comum em círculos conservadores e entendida desta forma, tem a sua própria força lógica.

Pessoalmente, nunca me senti completamente convencido com esta concepção. Sempre me pareceu que esta era uma ideia que carecia de maior escrutínio. Afinal de contas, também o liberalismo não tem 1 livro, nem tem O autor. É sim um conjunto de valores que, ao serem interpretados, geram diferentes sub-ramos ideológicos; e poucos duvidam que o liberalismo tem carácter ideológico.

O conceito de conservadorismo é relativamente recente e pertence à modernidade que se desenhou a partir da revolução francesa. Entendido no seu sentido geral, o sentimento conservador presente em autores como Maistre (França) ou Burke (Reino Unido), centra-se necessariamente na conservação dos valores pré-revolução francesa perante o triunfo do liberalismo. Desta forma, o termo conservadorismo baseia-se numa atitude reaccionária de oposição aos avanços da modernidade ocidental. De Maistre a Burke, de Spengler a Nietzsche, todos eles reagem intelectualmente contra o triunfo do individualismo liberal e defendem os valores pré-revolucionários da honra, aristocracia, excelência de virtude, desigualdade natural, particularismo moral e autoridade natural. Por outras palavras, defendem os valores responsáveis pela grandeza da civilização ocidental; valores estes que, ao serem abolidos, geram o inevitável declínio cultural e físico.

Com o avanço do triunfo do zeitgeist moderno, o termo conservador perdeu significado e aproximou-se de facto desta lógica Kirkiana que postula o conservadorismo como uma (pré-)disposição para a conservação, para preferir o familiar e tradicional ao desconhecido. É desta perda de significado que nascem os actuais “conservadores liberais”, que hoje em dia, inclusive, defendem triunfos da revolução “gramsciana” como o feminismo (light) ou universalismo igualitário do homem (i.e. “interchangeability of Man”). Chegam mesmo a defender estes valores como Os valores conservadores, colocando na categoria de “extremistas” todos os que os contestarem com valores clássicos. Estes novos “conservadores” que pululam pelas crónicas de jornais e blogues, conservam de facto o familiar, mas como o familiar para eles é o paradigma liberal, é isso que eles conservam. Com o problema, claro está, de que quem conserva um paradigma liberal não é um conservador, é um liberal (clássico ou moderno). Da mesma forma, um comunista que queira conservar o comunismo não passa a ser conservador, é simplesmente um comunista a operar no status-quo.

É quando começamos a desafiar a ideia de que o conservadorismo não é apenas uma pré-disposição para conservar o familiar e tradicional que se começa a perceber que talvez exista algo mais do que apenas esse corpo de sentimentos. Por outras palavras, não basta sentir que se quer conservar algo, muito menos aquilo que nos rodeia apenas porque é o que temos, é preciso ter uma ideia (mais ou menos) concreta do que se quer conservar. Russell Kirk parece concordar, especialmente quando coloca substância neste sentimento de conservação. Ele diz-nos que a função de um conservador é “preservar um povo específico, a viver num sítio específico, durante um tempo específico”. Este parece-me ser dos pontos com mais acuidade que este pensador conservador nos deixou. Porém, é legítimo questionar se essa lógica de carácter claramente normativo não terá um teor ideológico.

F. Nietzsche revolucionou o mundo da filosofia moral ao questionar todo o edifício da moralidade iluminista-racionalista. Segundo a perspectiva do filósofo alemão, os valores são criados pelo Homem para o ajudar na sua (bio-)expansão, dominação, vitalidade e sobrevivência. Como tal, apesar de muitos de nós os encararmos como absolutos para efeitos de socialização, eles estão na realidade longe de o serem; e o futuro pertence assim aos criadores que forem capazes de perceber quando é que certos valores já não servem os seus propósitos de crescimento.

O estatuto de Nietzsche como conservador é controverso. Ele é um feroz inigualitário e um defensor do homem nobre e de virtude; ou seja, desenhou a apologia do aristocrata radical. Ele procurava conservar a excelência presente em alguns homens e para o efeito advogava a conservação intransigente das linhas de sangue vitais, de forma a impedir o declínio das capacidades humanas. Se para vários pensadores (como Leo Strauss) Nietzsche é O conservador aristocrata por excelência, para muitos  outros conservadores Nietzsche já não pertence a esse canon (em larga medida devido ao seu perfil iconoclasta).

Desta forma, se os valores não são absolutos, tal significa que os sentimentos de conservação não chegam, é preciso uma construção de valores normativos e uma defesa dos mesmos que permitam que essa preservação seja eficiente. Essa construção de valores poderá ter de ser genericamente ideológica. Ademais, o conservadorismo, ao aceitar por norma os valores religiosos como vitais para a harmonia social, tende a “demitir-se” de fabricar essa “carta” de valores, pois estes pertencem ao domínio religioso. Assim, incorpora-os mesmo que os separe conceptualmente de si mesmo; mas continua a existir “uma carta escrita em pedra” que os conservadores insistem em seguir; sem surpresa, em qualquer sociedade parece existir invariavelmente um farol ideológico/moral que a sustenta, seja de carácter secular ou teológico.

Além do mais, existem traços psicológicos que permitem identificar um pensador como conservador ou com propensões conservadoras, nomeadamente: a defesa do colectivo social como um organismo (as nações Britânicas e Francesas no caso de Burke e Maistre ou o Homem ocidental no caso de Nietzsche ou Spengler), a defesa da ligação de sangue e cultura como vitais para o sucesso ou insucesso politico e social, uma aversão ao igualitarismo e uma aceitação das leis competitivas da natureza. Por outras palavras, quando se constroem valores à volta destas características psicológicas (honra, virtude, lealdade ao grupo, etc…), torna-se quase impossível distinguir o normativo (ideológico) dos sentimentos inatos.

Isto não significa que Russell Kirk não esteja correcto quando se refere a este corpo de sentimentos e esta (pré-)disposição de ver e sentir o mundo. Satoshi Kanazawa,  psicólogo evolutivo da London School of Economics, revela que os sentimentos psicológicos conservadores são não só os mais comuns, mas também aqueles que são naturais, no sentido em que são aqueles que tradicionalmente levaram ao sucesso adaptativo dos povos; mas apesar destas tendências, sabemos que os humanos se deixam apaixonar por valores e ideologias, muitas delas evolutivamente maladaptativas e que, em última instância, podem levar à extinção de povos.

A verdade é que as ideologias são “cartas” de princípios morais que movem os seres humanos, mesmo quando apontam para um céu inatingível. Mais, eles movem os seres humanos precisamente porque os fazem sonhar e os motivam. É provável que o declínio do conservadorismo passe muito por se ter querido afastar dos sonhos ideológicos; por ter sempre sido mais defensivo e reactivo do que pró-activo, criativo e dinâmico; mas tal não é destino; apesar de ter a sua base em sentimentos inatos reais e evolutivos, o conservadorismo podia ganhar em assumir criativamente os seus valores normativos como sendo de vanguarda; isto é, de conservação dos valores de grandeza civilizacional passada mas com vista a atingir grandes feitos futuros.

Desta forma, talvez fosse possível sair definitivamente da modernidade ideológica ocidental e estes sentimentos identificados por Russell Kirk passariam a operar sob uma nova denominação.

Faz Sentido ser de Direita, mas não Liberal

Depois de escrever o meu texto sobre o declínio da direita, o Rui Albuquerque escreveu um texto com uma posição contrária aos meus argumentos, apesar de não me mencionar no seu texto. Depois de ler o texto em questão optei por fazer alguns comentários que me parecem vitais em temas de filosofia política.

O Rui parece determinado em provar que o liberalismo clássico é uma ideologia de direita. Vale a pena lembrar que no meu texto eu não disse que este não era visto como de direita no actual momento. Perante a total rendição da direita ao liberalismo, o liberalismo clássico apresenta-se como uma forma menos igualitária do que o vigente liberalismo social. Mas, por todas as razões que expliquei no meu texto, é uma teoria com fortes elementos igualitários, anti-tradicionalistas e universalistas, que a afastam da direita tradicional. Uma coisa é certa, um liberal clássico no século XIX era de esquerda de caras. Foi a vitória da esquerda actual que os colocou na alegada “direita” sem que eles saíssem do mesmo lugar.

Seja como for, há pontos na argumentação do Rui que violam as bases consensuais da teoria política. O Rui alega que o que caracteriza a direita é o individualismo (por oposição ao que eu escrevi: que a direita é tradicionalmente anti-individualista, familista e tribal). Diz também que o indivíduo visto como parte de um colectivo é uma posição de esquerda. Nas palavras do Rui:

“Enquanto que a direita vê nele o indivíduo, a esquerda tem-no como cidadão. Nesta perspectiva, o homem é, para a direita, por si mesmo, sujeito e objecto de direitos face ao poder político, enquanto que, para a esquerda, ele existe essencialmente na sua relação com a coisa pública”

Obviamente, é possível subverter as bases da teoria política para colocar o liberalismo na direita, mas basta abrir uma enciclopédia para encontrar a definição básica de conservadorismo. Da Encyclopedia Brittanica:

“Conservatism, political doctrine that emphasizes the value of traditional institutions and practices.

Conservatism is a preference for the historically inherited rather than the abstract and ideal. This preference has traditionally rested on an organic conception of society -that is, on the belief that society is not merely a loose collection of individuals but a living organism comprising closely connected, interdependent members.”

O conservadorismo é tribal e comunitário, considera as tradições locais e particulares acima do indivíduo. E, claro, a não ser que achemos que o conservadorismo é de esquerda, a lógica “a direita vê o indivíduo antes do colectivo” não é válida.

O Rui escreve que “para a esquerda o homem nunca é, por si só, suficiente”. Podemos aceitar perfeitamente esta definição. Porém, à direita, aquilo que a esquerda pode chamar de cidadão, a direita tradicional chama de “pertença” (membership). Como diria Roger Scruton, que talvez, quem sabe, seja um “colectivista de esquerda”, todos nós precisamos de pertencer a um grupo para nos identificarmos e lutarmos juntos por objectivos; que a felicidade passa por essa submersão do eu num colectivo maior que nós.

Assim, é muito claro que a direita tradicional também não vê o homem como suficiente por si só. E nem precisamos de recorrer a teorias Hobbesianas para o verificar.

Depois há a questão da dominação e alteração do social pela via do poder. O Rui escreve:

“A esquerda entende que o “mundo” pode ser transformado por golpes de vontade e é o resultado de forças inteligentes e direccionadas.”

Aqui eu tendo a concordar parcialmente. A esquerda tende a preferir a ruptura porque num mundo onde a igualdade é uma utopia, é sempre preciso mudar algo mais. Onde eu discordo é que esta seja a única a agir com via a transformar o social. Todos os governos, da esquerda à direita, tentam gerir a sociedade no seu sentido, usando retórica, propaganda, valores ou espiritualidade. As elites, para o bem ou para o mal, lideram e modelam as massas. Mas mais, o mundo pode facto ser transformado com golpes de vontade das elites. Se à esquerda temos exemplos como a Escola de Frankfurt, à direita temos os conservadores/nacionalistas judeus que visualizaram e criaram um etno-Estado para o seu povo. Nietzsche, que é insuspeito de ser de esquerda, sabia bem que o mundo é transformado por “golpes de vontade” (the will to power) dos homens com grandes capacidades.

Por fim, o Rui escreve que a direita existe quando existem direitos negativos (universais e igualitários, suponho) protegidos por uma constituição liberal. Nas palavras dele:

“Os direitos naturais do indivíduo à liberdade e à propriedade, isto é, os direitos negativos sobre os quais o estado não poderá nunca dispor, reconhecidos por via da Constituição ou de outros instrumentos normativos que o protejam perante o poder público, é marca da direita.”

Com isto, (e em forma de caricatura) somos obrigados a concluir que a civilização ocidental viveu em esquerdismo durante milénios até que o constitucionalismo liberal foi inventado pelos pensadores do iluminismo. Os gregos clássicos, que na sua polis tinham um noção política tribal, distinguindo perfeitamente os cidadãos dos escravos, eram portanto esquerdistas. Esquerdistas estes que continuaram pelas monarquias divinas durante séculos até que se inventou o constitucionalismo liberal. É caso para dizer que a civilização ocidental foi inventada e vivida pela esquerda; isto claro, se aceitarmos que a marca da direita são direitos naturais à liberdade e propriedade pela via constitucional.

A meu ver, a distinção que ofereci de direita e esquerda no meu texto anterior continua a ser a distinção fundamental desta divisão. Tenho agora o prazer único de me citar; escrevi:

“Se há algo que difere a esquerda da direita é a perspectiva moral com que encaram a igualdade e a desigualdade. Enquanto que a esquerda faz do igualitarismo um deus intocável, um bem moral último, a direita vê a desigualdade humana como natural e respeitante da ordem humana e daí deriva a sua força moral positiva. Por outras palavras, a direita idealiza a qualidade (que implica desigualdade) e a esquerda idealiza a igualdade.”

Se a direita idealiza a qualidade, essa qualidade significa hierarquia; não só entre indivíduos, mas igualmente entre grupos.

Isto tudo, claro, para dizer que o que define a direita não poderá ser o seu individualismo moral e muito menos o liberalismo constitucional.

Leitura complementar: Roger Scruton: How to be a Non-Liberal, Anti-Socialist Conservative.

PS: Percebo que a minha posição seja anátema para muitos neste blogue (O Insurgente), porém, eu sou da opinião de que quando algo não está a funcionar é preciso mudar e perceber as “causas da doença”. É assim que se vencem determinadas lutas e é a obrigação daqueles que percebem os problemas articulá-los perante a sua comunidade. Sei também que as comunidades sobrevivem à volta de certos axiomas e que se tornam colectivamente antagonistas quando esses axiomas são questionados. Se for esse o caso, então a parte mais fraca é o dissidente e não a comunidade. Isto é algo que temos de aceitar como uma evidência humana. Por isso, novas comunidades se formam.

A “Direita”: Causas do Declínio

Muitos que se dizem de direita queixam-se de que esta não tem representação no mainstream político e comunicacional. Tudo é de esquerda agora, variando apenas na intensidade do igualitarismo apregoado. Porém, o termo “direita” é usado em todo o lado e temos a sensação de que ela existe e que se move. Ela tem representantes na televisão a verbalizar coisas supostamente de direita; e mais, alegadamente há gente de direita a escrever na imprensa e em blogues. Na realidade, com as devidas excepções, não há direita no discurso mainstream político e tal explica-se com uma das mais ferozes críticas à postura conservadora: que esta se limita a conservar as revoluções dos outros (i.e. da esquerda).

Se há algo que difere a esquerda da direita é a perspectiva moral com que encaram a igualdade e a desigualdade. Enquanto que a esquerda faz do igualitarismo um deus intocável, um bem moral último, a direita vê a desigualdade humana como natural e respeitante da ordem humana e daí deriva a sua força moral positiva. Por outras palavras, a direita idealiza a qualidade (que implica desigualdade) e a esquerda idealiza a igualdade. Desta forma, talvez fosse mais correcto usar os termos “vertical (hierarquia) vs horizontal (igualdade)” em vez do clássico “direita vs esquerda” que saiu do parlamento francês durante a revolução francesa.

O problema daquilo que passa por direita hoje em dia é ter absorvido muitos dos valores das revoluções igualitárias do passado e defendê-los como se fossem seus. Muitos destes valores poderiam ser discutidos, mas para este artigo interessam particularmente 3: liberalismo, materialismo e racionalismo.

Liberalismo

O liberalismo fez-se contra a tradição, contra a autoridade religiosa, contra a aristocracia, ou seja, fez-se contra a ordem hierárquica natural que se tinha desenvolvido na Europa durante milénios. Fez-se a favor do indivíduo e da igualdade e liberdade do Homem. Do ponto de vista moral, o liberal considera que todos os homens são formalmente iguais e que no indivíduo e só nele reside a soberania última. Daí a crença liberal em “direitos”, sejam eles “humanos”, de propriedade ou de libertação. Esta foi uma revolução igualitária contra a autoridade da tradição e que a direita tentou combater desde sempre. Em Inglaterra, os liberais estavam à esquerda do parlamento e passaram o século XIX a lutarem contra a ordem tradicional hierárquica.

Hoje em dia, perante o esmagador triunfo do liberalismo no ocidente do pós guerra, a direita cedeu e abraçou o liberalismo. Regra geral, acredita em “direitos humanos”, no mercado, no universalismo do Homem, no secularismo de Estado, na democracia liberal, etc… Por outras palavras, acredita em todas as revoluções feitas pela esquerda igualitária e agora convence-se que estas são as suas causas.

Isto advém em grande parte da aversão patológica que a direita geralmente tem a ideias abstractas. O “direitista” médio diz-se um homem pragmático, desprovido de grandes utopias loucas, que gere o que a vida apresenta, mas sem saber tornou-se num escravo das ideias igualitárias; pior, convenceu-se que estas ideias são suas, mesmo que muitas vezes sinta que elas não funcionam, ele acha que elas são moralmente boas.

Ao abraçar o liberalismo a direita ignorou a sua posição tradicional anti-individualista baseada na família, nação, tradição, sangue, autoridade, hierarquia e espiritualidade. Aliás, tirando os mais eruditos, os “direitistas” médios não fazem ideia do que é a direita tradicional e acham que ser de direita é defender o indivíduo até ao infinito. Não é surpreendente que a esquerda tenha uma vida tão fácil e que mantenha a sua hegemonia, mesmo quando o seu modelo social igualitário vai colapsando a olhos vistos. Assim, perante a progressiva derrota da direita não é de admirar que o liberalismo clássico, outrora uma ideologia de esquerda, seja agora o último refúgio da direita que não tem coragem ou engenho para sair do actual paradigma; desta forma,  a luta ideológica fica limitada a 2 liberalismos: o clássico (de inspiração Lockeana) e o social de pendor ainda mais igualitário (de J. S. Mill a John Rawls).

Materialismo/Economicismo

Existe a ideia de que foi Marx quem nos trouxe o materialismo (histórico), onde o fenómeno social é explicado segundo as condições materiais existentes. Porém, tal como em tudo o resto, Marx limitou-se a seguir a lógica do liberalismo clássico que colocou o foco da moralidade no material quando fez da propriedade sinónimo de liberdade individual. A partir daí os “direitos” ganharam uma componente material.

Hoje em dia tudo é explicado em termos materiais: quanto cresceu o PIB? Qual a dívida pública? A política X cria ou não mais riqueza material? Outras considerações à “direita”, especialmente de índole cultural e particular, praticamente desapareceram do discurso político, permitindo à esquerda basear todo o seu discurso na igualdade material (i.e. justiça social). Isto baseia-se na assumpção de que se o problema do crescimento económico for resolvido, tudo está resolvido. Porém, o que vemos no mundo é a conquista demográfica de povos com culturas pouco materialistas, com práticas nada liberais e com mercados muito menos desenvolvidos; e como se costuma dizer: a demografia é destino. A resposta aqui está na cultura e no seu impacto. Nisto a “direita” calou-se, ou quando fala é para criticar práticas anti-liberais de outros povos (e.g. muçulmanos). Mais uma vez, a melhor defesa das revoluções igualitárias e anti-tradicionais vem da actual “direita”.

Racionalismo

A direita sempre foi céptica em relação ao racionalismo. Sempre assumiu que os homens são competitivos, instintivos e vítimas de paixões. Reagiu negativamente contra o iluminismo alegando que a crença na razão é simplesmente isso: uma crença infundada.

Porém, hoje a direita entregou-se de corpo e alma ao racionalismo, esquecendo a velha máxima de David Hume que a “Razão é a escrava das paixões”. Isto é particularmente evidente quando tenta convencer racionalmente as massas de que o que é preciso são “contas em dia”, “austeridade”, “procura e oferta” e mercado (mais ou menos) livre. Como a direita já devia saber, os seres humanos sentem primeiro e pensam depois (quando pensam). A “direita” postula que é preciso austeridade e continhas no sítio, mas como perdeu o lado do discurso que permitia ser convincente e persuasiva (a nação, Portugal, a cultura, a “raça” portuguesa), tornou-se na coisa menos apelativa de sempre … não admira que o povo seja todo de esquerda. Ao ignorar o tribalismo natural e o emocionalismo humano a direita entregou as cartas todas à esquerda. Ficando apenas com reivindicações de baixos impostos, mercado globalista e austeridade sem ter valores colectivos para oferecer. Isto, claro está, é a melhor receita para derrotas infinitas, quer na frente económica, quer na frente cultural.

Em suma, não se combate a esquerda do século XXI com ideologias de esquerda do século XIX.

Poderá José Sócrates ser Nietzscheano?

Para reabilitar a sua imagem pública, eis que depois do seu exílio em França o ex-primeiro ministro José Sócrates volta ao comentário político sob a indignação de muitos, especialmente daqueles que se dizem de direita. Ao ler o pequeno texto do André (Azevedo Alves) a sugerir que José Sócrates se transformou numa manipuladora personagem Nietzscheana que reavalia todos os valores, não pude deixar de pensar: poderá José Sócrates ser Nietzscheano em algum sentido?

À primeira vista, ao comparar a filosofia de Nietzsche com alguém como José Sócrates o veredicto é simples: praticamente tudo o que o autor alemão defende é contrário ao que José Sócrates representa. Senão vejamos: Nietzsche rejeita o igualitarismo moral e biológico, a moralidade de escravo (anti-excelência), o socialismo (que é moralidade de escravo sem Deus), o liberalismo (igualitarismo dos “cobardes”), o governo das massas (e.g. democracia) e o universalismo da moralidade. Tudo isto, podemos dizer, são valores que José Sócrates não só representa como fez deles a sua carreira.

Por outro lado, podemos argumentar que José Sócrates é apenas um produto do tempo em que vive, onde praticamente tudo o que Nietzsche rejeitava é hoje a norma (daí que o filósofo em causa tenha previsto a decadência niilista do ocidente). E é aqui que, no meu entender, a comparação do André se torna pertinente, pois apesar de Sócrates representar o oposto do que Nietzsche defendia, ele pode perfeitamente estar a usar o zeitgeist (espírito dos tempos) para atingir o poder, ou seja, a usar a célebre “vontade de poder” Nietzscheana. Por outras palavras, José Sócrates nega a realidade e tenta vender uma nova realidade sobre o que aconteceu durante o período em que foi primeiro ministro. Isto, claro, para se manter no poder político.  Assim, o real torna-se difuso, confuso e ambíguo, e o ex-primeiro ministro ganha um novo fôlego político através do relativizar da realidade. Se o conseguir, talvez seja um dos “homens superiores” Nietzscheanos. Será?

O homem superior, para Nietzsche, é aquele capaz de afirmar a vida e reavaliar (ou transmutar) os seus valores para sair da moralidade de rebanho e atingir os seus objectivos, sendo esses objectivos a superioridade e a excelência humana.

Aqui torna-se importante questionar se o que Sócrates está a reavaliar são os valores ou a realidade. Podemos admitir que ambos estão interligados, mas são conceitos distintos. Pessoalmente, parece-me que é a leitura da realidade que Sócrates está a tentar mudar e não tanto os valores. Ele continuará a representar a moralidade de escravo que Nietzsche abomina (i.e. o igualitarismo e a promoção da mediocridade de massas).

Podemos complicar a questão ao perguntarmos se Sócrates realmente acredita nesta moralidade que apregoa diariamente. Ao contrário dos mais fervorosos defensores do “egoísmo” da escolha racional, a resposta aqui, parece-me que é positiva. A esmagadora maioria dos políticos acredita ou acaba a acreditar no que diz e auto-motiva-se com esse motor psicológico. Talvez sofram do que Marx apelidou de “falsa consciência” e no fundo estejam mesmo só a procurar o seu interesse, mas na sua mente consideram que o seu auto-interesse está confluído com o do povo.  José Sócrates não será excepção.

Porém, Nietzsche sempre foi um pensador complexo e imprevisível  que surpreendia com a sua subtileza. Por exemplo, Nietzsche considerava Jesus um desses homens superiores que foi capaz de transmutar os seus valores (tal como os da sua época) e revolucionar criativamente o mundo à sua volta.  Mas, tal como nós já desconfiávamos, José Sócrates não é Jesus, e como tal, provavelmente não iria ser poupado pelo pensador alemão. Porquê?

As características que Nietzsche revelou como intrínsecas aos homens superiores são a capacidade para afirmar a sua vontade através da imposição da vontade (pela via bélica se for necessário) e a capacidade para criar construtivamente, ser original e virtuoso sem nunca ceder à moralidade que favorece a mediocridade e a vida fácil dos que não sabem ou conseguem mais. Em suma, o homem superior é um aristocrata no mais profundo sentido clássico do termo.

Certamente, este “homem Nietzscheano” precisa de saber adaptar-se ao contexto, coisa que Sócrates sempre fez maravilhosamente. Contudo, tal não se torna suficiente, pois a adaptação a um contexto medíocre para manutenção desse mesmo contexto é o oposto da superioridade; estando mais próximo do oportunismo. José Sócrates nunca revelou qualquer capacidade para criar ou alterar o trágico rumo europeísta, igualitário e de endividamento que herdou dos anteriores governos da 3ª República. Chegou a primeiro ministro e limitou-se a levar o país e o actual regime para a sua consequência lógica: a bancarrota moral e financeira. Não criou, não mudou, não inovou e não repensou, limitou-se a aproveitar o espírito dos tempos para viver em facilitismo político. Desta forma, o Über nunca esteve ao alcance deste homem.

A Ideia da “União” Europeia: Kant vs Nietzsche

Por norma, os intelectuais contemporâneos do ocidente gostam da União Europeia e há razões fortes para isso. Com o insucesso do marxismo económico (que foi substituído pelo sucesso do freudo-marxismo) e com o antagonismo compulsivo ao nacionalismo que decorreu da infelicidade das 2 guerras mundiais, o liberalismo foi a ideologia vencedora e hegemónica do pós guerra. Este liberalismo, claro, coloca a tónica no valor da igualdade como valor essencial para suportar a liberdade individual, daí ser apelidado de liberalismo social ou igualitário, sendo o liberalismo clássico/libertário apenas uma voz minoritária e crítica do que devia ser o liberalismo (questão que não vou agora discutir). Assim, quem conhece os meandros universitários e intelectuais sabe que a maioria se revê no paradigma liberal (normalmente de carácter igualitário) e mesmo os simpatizantes do marxismo já se sentem confortáveis no liberalismo igualitário, visto que este absorve muitas das ideias radicais de Marx.

I. Kant

A União Europeia é um projecto feito neste espírito liberal individualista, onde os colectivos identitários que denominamos de nações devem ser diluídos em troca de uma “pacífica” colecção de indivíduos sob o mesmo Estado federal. Esta é uma visão influenciada pela moralidade universal Kantiana, ou seja, pelo imperativo categórico de que devemos tratar igualmente todos os indivíduos (independentemente da origem) como se quiséssemos que tal tratamento se tornasse uma norma universal. A paz eterna de Kant baseia-se nesta moralidade, que é a base filosófica do pacifismo da União Europeia. Por outras palavras, só acabando com o particularismo filosófico (i.e. o “nós” vs “eles” identitário) será possível atingir o almejado modelo Eurocrata. Ao optar pelo universalismo, a União Europeia almeja ser, como diria Hans-Hermann Hoppe, apenas um passo para um futuro governo mundial. Assim, esta União Europeia não é “de facto” Europeia porque não tenciona representar Europeus; tenciona sim representar os valores da universalidade Kantiana, a humanidade, o liberalismo e os direitos do Homem promovidos pela revolução francesa.

Dado o hegemónico clima intelectual igualitário, individualista e universalista da actualidade ocidental, não é difícil de perceber o porquê de existir tanta simpatia pela União Europeia entre intelectuais; ao ponto de alguns chegarem a trocar o antigo “socialismo ou morte” pelo novo “federalismo europeu ou morte”.

F. Nietzsche

Porém, se este modelo de União Europeia tem por base a moralidade Kantiana,  há entre os colossos da filosofia ocidental outras ideias de “União” Europeia que seriam anátema para os actuais euro-federalistas. Estou a referir-me ao Pan-europeísmo de Nietzsche.

Apesar de o seu nome ter sido usado com esse fim, Nietzsche era contra o nacionalismo de pequena escala e escreveu ostensivamente contra o nacionalismo alemão. Ele considerava que os nacionalismos intra-europeus destruíam a vitalidade europeia e como tal defendia o pan-europeísmo. Era assim um europeísta convicto, um patriota europeu, um “civilizacionista” ocidental que defendeu intransigentemente o conceito de “bom europeu”.

No entanto, o que separa a UE de Nietzsche da actual UE Kantiana é a moralidade subjacente. Toda a filosofia Nietzscheana está baseada na desigualdade natural entre os homens; e “afirmar a vida” significa abraçar essa desigualdade através uma moralidade positiva e aceitar o desafio da superação humana.  Isto, claro, implica a rejeição absoluta de valores igualitários como os “direitos do Homem”, a democracia liberal, tal como as quotas niveladoras ou a redistribuição compulsiva, entre outros conceitos centrais para a actual UE. Para ele, todas estas expressões são apenas variações da mesma moralidade de escravo; onde os homens fisiologicamente e culturalmente com mais valor são puxados para a mediocridade pelas massas, provocando o declínio progressivo da civilização ocidental.

Segundo este pensador alemão, qualquer grande civilização ou império só se sustenta se o governo for de carácter aristocrático e resistir a tentações igualitárias como o liberalismo, socialismo ou a democracia; isto implica uma vontade de poder e autoridade por parte dos homens de valor (“aristos”), assim como o respeito pela tradição hierárquica geracional.

O próprio objectivo desta União Europeia teria de representar a “vontade de poder” do “Homem Europeu”, presente na apreciação que Nietzsche tinha de Napoleão quando escreveu que o líder francês era uma força de génio com capacidade de levar a Europa a uma união política e económica que poderia “dominar o mundo”.

Poucas dúvidas restam que entre estas 2 visões de União Europeia foi a Kantiana que venceu. Porém, ao abraçar o universalismo como credo político, o actual projecto federalista desafiou a identidade europeia e o seu particularismo; por outras palavras, desafiou a ideia tradicionalista de sangue e civilização. Com isto, conseguiu diminuir a força e o potencial de acção colectiva interno das nações europeias. Contudo, se o filósofo Roger Scruton estiver correcto (como eu penso que está) quando escreve que todas as sociedades políticas dependem do sentimento de pertença, a actual UE de carácter universalista e individualista é um projecto falhado à partida.

No século XIX, Nietzsche previu que antes de a Europa estar verdadeiramente unida, iríamos passar por uma fase intensa de guerras, democratização, igualitarismo e crise moral, o que de facto se passou e se está a passar. Ironicamente, com ou sem intenção, esta União Europeia Kantiana arrisca-se a unir os europeus, que nunca estariam tão próximos como começam a estar perante este “ataque” às suas tradições e identidades; em última instância, poderão inclusive chegar ao ponto (impensável em condições normais) de se identificarem como Europeus contra este inimigo comum. Se tal acontecer, o actual universalismo Kantiano será provavelmente substituído por um europeísmo mais Nietzscheano e veremos uma “vontade de poder” assumida.

Nessa altura, as ideias hegemónicas serão outras… e os intelectuais médios também.